quarta-feira, novembro 13

SANTARÉM E EU. EU E SANTARÉM

Retornando do Encontro das águas do Tapajós e Amazonas. Panorâmica de Santarém/PA


          Conheci Santarém na adolescência. Foi numa “embaixada”, como chamávamos aos passeios coletivos de estudantes, dos alunos do terceiro ano ginasial do Colégio Nossa Senhora do Carmo, de Parintins/AM, minha terra natal. Lembro-me bem. Viajamos no barco a motor “Carlos Mário”, do meu falecido tio Militão Paulain, pai do Mário José, meu colega de turma e companheiro de “traquinagens”.

          Uma viagem inesquecível. Fomos recepcionados em Santarém pelas alunas do Colégio Santa Clara, quando agradeci, em nome da turma, aquela calorosa acolhida. Tão calorosa que uma das alunas despertou meu amor juvenil. Coisas da paixão. A vida nos levou para rumos diferentes. Noutro dia, eu e os colegas participamos de uma festa no colégio estadual Álvaro Adolfo. O melhor mesmo foi o passeio à praia de Maria José, uma das mais belas que conheci. Em boa companhia, melhor ainda se tornou o passeio para todos.

Daniel Leite mediando o Papo Literário com Guilherme Fiuza
          Muitos anos depois, retornei à Santarém por duas vezes, em auditorias do Tribunal de Contas da União, na Prefeitura Municipal daquela cidade. Objetivo de trabalho, pouco tempo para o  lazer, mas lembro que, numa delas, que coincidiu com a festa da padroeira da cidade, Nossa Senhora da Conceição, eu e o colega Israel da Silva Gomes fomos até a praia de Alter do Chão.




          Outros anos se passaram, já aposentado do TCU e dedicando-me agora, à literatura e comunicação, minhas origens, retornei à Santarém, como diz o Rubem Alves, no “outono da vida”. Acompanhado de minha esposa Ana Celeste, fomos participar do VI Salão do Livro da Região do Baixo Amazonas, uma atividade da Feira Pan-Amazônica do Livro, promovida pela Secretaria de Cultura do Estado do Pará/Secult. E também, para desfrutarmos as maravilhas da Pérola do Tapajós.

 
Voltando da Ilha dos Amores, em Alter do Chão
         
        Fiquei encantado com tudo o que vi. Uma cidade limpa, bem cuidada e estruturada, ainda sem os graves problemas de trânsito que afligem as cidades de grande porte. Um povo educado e hospitaleiro e o melhor de tudo, uma efervescência cultural impressionante. As lindas praias, inclusive Alter do Chão, o Caribe Amazônico e a gastronomia em que prevalecem os peixes próprios da região, são um caso à parte. Conhecemos grande parte dos excelentes restaurantes santarenos.

         
               Visitamos o Museu de Arte Sacra, anexo à Catedral de Nossa Senhora da Conceição, onde colhi  elementos cruciais para a pesquisa que estou realizando acerca de um tema da maior importância para a Amazônia, que redundará num documentário escrito ou um romance histórico, minha próxima obra.

Aos 93 anos, D. Dica continua produzindo

Conhecemos pessoas singulares, como Dona Dica Frazão, em seu Museu/Ateliê/Residência. Uma verdadeira artista que confecciona as mais lindas peças exclusivamente com materiais regionais. Desde singelos pequenos brindes até vestidos de noiva, indumentárias para personagens do Boi Garantido, de Parintins, sendo ela a criadora da personagem Sinhazinha da Fazenda e também, já confeccionou roupas para personalidades como a Rainha Sophia, da Suécia. De cada peça importante produzida ela faz uma réplica, para expor em seu Museu.         



Dona Dica já ganhou placas e diplomas como reconhecimento pela sua  produção, mas apoio financeiro governamental, não teve nenhum. Hoje, diversas caixas contendo peças feitas por ela, empoeiram sobre um armário, mesmo tendo espaço reservado para a exposição, pois falta-lhe condições financeiras para os equipamentos necessários. Isso tudo, mesmo sendo ela conhecida e visitada por governantes dos mais diversos naipes, do passado e do presente. Dona Dica, aos 93 anos e com as limitações decorrentes de uma queda, mantém lucidez invejável e, além de tudo, é poeta.  





Com  o Mestre Édson Berbary
Minha participação no VI Salão do Livro da Região do Baixo Amazonas foi altamente proveitosa. Pessoas das mais variadas faixas etárias compraram exemplares do meu livro de crônicas “Causos Amazônicos”, cuja primeira edição de mil exemplares está chegando ao fim. Convivi com escritores e artistas paraenses, inclusive de municípios do Baixo Amazonas e também, com intelectuais vindos do sul/sudeste, como Inácio de Loyola Brandão e Guilherme Fiuza. Foi emocionante o encerramento da programação cultural do Salão, com o grupo Cia do Tijolo, de São Paulo, com o espetáculo “Cante lá que eu canto cá", um sarau literário e musical inspirado nas obras do poeta cearense Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré. 

          Outra vivência da maior importância, na minha estada santarena, foi o contato com professores e servidores da Universidade Federal do Oeste do Pará/UFOPA, que se encontra em fase final de implantação e realizará, nos próximos dias, a primeira eleição para seu corpo dirigente.

          É digno de louvor o trabalho dos implantadores da UFOPA, que criaram e desenvolvem uma Universidade na acepção mais precisa que o tempo comporta. Uma instituição que interage com os diversos segmentos da sociedade e  procura responder às demandas da realidade onde ela está implantada, preparando inclusive, mestres e doutores para atender as necessidades do Oeste do Pará. Um trabalho que merece ter continuidade.

Na segunda-feira passada, a UFOPA outorgou título de Doutor Honoris Causa ao violonista e compositor Sebastião Tapajós, músico santareno reconhecido internacionalmente. Formado pelo Conservatório Nacional de Música de Lisboa, em Portugal, Sebastião foi professor de violão clássico do Conservatório Carlos Gomes. Ao executar a obra-prima de Villa-Lobos, Concerto para Violão e Pequena Orquestra, com a Orquestra Sinfônica Nacional no Teatro Municipal do Rio teve sua carreira projetada no exterior. Detentor de sólida carreira internacional, hoje tem 50 discos lançados.









sexta-feira, novembro 1

E POR FALAR EM POESIA… (o retorno)



       Recebi do imortal da Academia Paraense de Letras, Roberto Carvalho de Faro, e-mail em que o “Lobo Magro” como é carinhosamente chamado pelo poetamigo Daniel da Rocha Leite, tece poeticamente considerações sobre a última postagem deste blog.

A última edição
Do blog do Octavio
Merece uma correção.
Deve chamar-se
Bloguetícias
Ou bloguesias
Ou bloguemações.
Está repleto de notícias,
De poesias,
De informações.
Isso sim,
É um bloguesão!

          Na foto abaixo, o “Lobo Magro”, entre Benny Franklin, Walcyr Monteiro e eu, após prestigiarmos o evento A NOITE É UMA PALAVRA,  do dia 29 de outubro passado.


          A NOITE É UMA PALAVRA é uma realização da Fundação Cultural Tancredo Neves dirigido pela professora Bella Pinto, que acontece na última quinta-feira de cada mês, no hall Ismael Nery, do CENTUR.       
          
Poetas com a Professora Bella Pinto, à direita 


          Obrigado pelo incentivo, meu mestre Lobo Magro. Quero tornar este blog cada vez mais um veículo da poesia, da música, das artes em geral, colocando-me ao lado dos que entendem serem necessárias iniciativas culturais espontâneas, preenchendo um espaço hoje incentivado, preponderantemente, por recursos públicos. 

sábado, outubro 26

E POR FALAR EM POESIA…


        ... retorno, após prolongada ausência deste espaço pra falar de Poetas e Músicos, de Círio de Nazaré, de casamento no Centenário de Vinícius de Moraes e de uma Volta Literária, com muita, muita Poesia.

100 MIL POETAS & MÚSICOS POR MUDANÇAS/2013


          Primeiro, o 100 MIL POETAS & MÚSICOS POR MUDANÇAS, Evento da Amazônia/2013. Com produção mais caprichada, este ano a equipe organizadora- Benny Franklin, Hudson Andrade, Rosenaldo Sanches, Alfredo Garcia e Octavio Pessoa, prevendo a chuva que no ano passado prejudicou  o espetáculo, providenciou um toldo para o palco. Para nossa felicidade, este ano a chuva caiu antes de começar o evento conduzido pelo Hudson Andrade e por mim,  numa noite estrelada e de muita poesia. Tivemos também na produção, como diz o cantor e compositor Luiz Melodia “o auxílio luxuoso” de Paulinho Assunção, Álvaro Drago e Mauro Lima Pontes. E mais uma vez contamos com a produção gráfica de Rui Bastos. Nossa intenção para o próximo ano, é cobrir toda a área do Anfiteatro São Pedro Nolasco, da Estação das Docas, protegendo inclusive o público, ante a possibilidade de chuva no nosso inverno amazônico, na data de realização do evento em todo o mundo, o último sábado do mês de setembro.

          A semântica POR UM RIO DE PAZ NA CIDADE DAS ÁGUAS, idealizada pelo poeta e escritor  Daniel da Rocha Leite, foi explicada neste poema  do próprio Daniel, que foi por mim interpretado:  

                                                         Desarmar o olho
                                                       desarmar a palavra
                                                      e o silêncio que fere.

Amar o outro, uma pessoa,
        outra pessoa
       simples pessoa,
um mundo todo feito de gente.

       Desarmar o olhar
                                                  desarmar a alma
        amar o estranho
                                                  todavia estranho
      toda(vida) uma vida
      outra vida,
                                       não mais uma multidão sozinha.

    Desarmar a palavra
     e o silêncio que fere.
     Semear novos mundos
    Semear outras novas vidas.
   
     Poeta um só, cem mil,
           pelo poema
        dentro do poema
        uma paz possível.
       Música, verso e vida
              pra gente
                                                     para o agora
                                                para os nossos filhos.

                                            Uma cidade que queremos
     uma terra de poesia
     um outro nosso chão.
                                        Uma outra memória do futuro.
                                          Uma cidade, um mundo.
                                     Um rio que anda dentro de um mar.



          Na sequência, o filósofo, poeta e escritor Antonio Juraci Siqueira declamou o poema de sua autoria que abriu o evento.

                                     POR UM RIO DE PAZ NA CIDADE DAS ÁGUAS
1
Belém, “Cidade das Águas”,
palco de amor e de fé,
berço de um povo guerreiro
que por nada arreda o pé
e em cujo peito cabano
desabrocha todo ano
o Lírio de Nazaré!

2
“Cem Mil Poetas & Músicos
Por Mudanças” mundiais
semeiam grãos de esperança
nos corações dos mortais.
Nós, poetas destas ribeiras,
içamos nossas bandeiras
é  “Por Um Rio de Paz”!

3
Unidos pela poesia,
em prol da vida cantamos
e neste palco de sonhos
justa homenagem prestamos
a Carlos Corrêa Santos
em cujo nome outros tantos
artistas também saudamos!

4
Nesta edição dedicada
ao mestre Walcyr Monteiro,
saudamos todos os mestres
do Brasil e do  estrangeiro
para que, lutando unidos,
seus brados sejam ouvidos
nas terras do mundo inteiro!

5
Cá estamos! Sonhadores
sem olhar credo nem cor.
Almas prenhes de ternura
e alheios à própria dor,
do coração da Amazônia
cantando, sem parcimônia,
por justiça, paz e amor!
6
Tudo o que juntos sonhamos
se transforma em grão fecundo.
Portanto, armados de afetos,
vestidos de amor profundo,
lancemos grãos de esperança,
de concórdia e de bonança
pelos canteiros do mundo!

7
Que não exista entre nós,
disputas, desunião,
pois a paz brota e viceja
onde há partilha de pão.
Teatrólogos, contistas,
poetas e romancistas
são dedos da mesma mão.

8
Cá da Cidade das Águas,
desta Amazônia louçã,
irmanados pelo sonho
seguimos em nosso afã
e por um rio de paz
nesta jornada tenaz
buscamos novo amanhã.

9
Prometeus de um tempo novo,
nós trazemos a alegria
na pira ardente do verbo
convertida em poesia:
fogo maior que unifica,
que transforma, purifica
e a dor do mundo alivia.

10
Mas se a fogueira do sonho
morrer ao nosso redor,
tornemos cinza em semente,
plantemos sonho maior!
Que a chama rubra da ação
brote em cada coração
em prol de um mundo melhor!

          Trinta poetas, homens e mulheres, intercalados por números musicais se sucederam no palco e brindaram o público que lotou o Anfiteatro São Pedro Nolasco, da Estação das Docas, com muita poesia. 

No centro, Carlos Correia Santos

          Momento especial da programação do 100 MIL POETAS & MÚSICOS POR MUDANÇAS, EVENTO DA AMAZÔNIA/2013 foi a homenagem ao poesta, escritor, dramaturgo, músico, Carlos Correia Santos, pelo conjunto de sua obra. Texto da obra do homenageado foi lido por de Hudson Andrade. Carlos,   que aniversariava naquele 28 de setembro, foi ovacionado pelo público, após o Parabéns a Você. Na sequência da homenagem, houve apresentação do VersiVox, peça líteromusical, de autoria do dramaturgo.

          No final, o conjunto do programa foi dedicado ao poeta, escritor e pesquisador da Cultura Amazônica, Walcyr Monteiro, que recebeu uma placa em que ficou consignado o reconhecimento dos poetas, escritores e músicos da Amazônia pelo seu trabalho de pesquisador.      



       Para o público que lotou o São Pedro Nolasco, eventos dessa natureza devem ser realizados mais vezes e noutros espaços. O 100 MIL POETAS & MÚSICOS POR MUDANÇAS já está inserido na programação anual da Estação das Docas e no catálogo cultural de Belém e da Amazônia.  




         
Virado o mês de setembro, o Círio de Nazaré que mobiliza todos os paraenses nativos ou por adoção, também me mobilizou, na condição de papachibé adotado  que vive intensamente todas as emoções do Círio de Nazaré. Como em todos os anos, após a missa e a saída da Berlinda da Igreja da Sé, “voamos” pra casa, pra concluir as providências e aguardar os parentes e amigos, para o almoço do Círio. Muita alegria e congraçamento e, pra variar, poesias, como esta do mano  Juraci Siqueira:

Barqueiros de Amor e Fé
I
Senhora do Amor Eterno,
em Vossa barca de flores,
volvei-nos o olhar materno,
rogai por nós, pescadores,
nas lutas do dia a dia
pelo pão da poesia
num mar de risos e dores.
II
Nesse rio de romeiros
nossa fé em Vós revoa;
somos todos canoeiros
a remar, com Deus à proa,
nessa igarité tão linda
que o povo chama Berlinda
e vos serve de canoa.
III
Pelas marolas da vida,
envoltos em nossos ais,
em Vós buscamos guarida
aportando em Vosso cais
- porto seguro e divino -
para atar nosso destino
no esteio de Vossa Paz.
IV
Seguimos nossos caminhos,
Senhora de Nazaré,
nós, humildes ribeirinhos
remando contra a maré
rio abaixo, rio acima
na barca que nos anima
onde embarca a nossa fé.
V
Nas rabetas, nas bajaras,
nos cascos, nas montarias,
nos batelões, nas igaras,
vencendo marés bravias
descem cargas de bonança
trazendo amor e esperança
em eternas romarias.
VI
Guiai os nossos barqueiros
com suas cargas de sonhos,
nossos produtos brejeiros,
de artesãos belos, risonhos
e os livrai das emboscadas,
das abordagens tramadas
por malfeitores medonhos.
VII
Virgem Mãe dos construtores
das nossas embarcações,
aliviai suas dores
dai paz em seus corações
para que sem sacrifícios
possam passar seus ofícios
às futuras gerações.
VIII
Ó, Virgem Santa, coloque
Vosso manto sobre nós
pondo em cada roque-roque
a voz dos nossos avós
junto aos sons da Natureza
emprenhando de beleza
este mundo grave e atroz.
IX
Eliminai nossos medos
nos dando um novo sentido,
nos fazei vossos brinquedos
de miriti colorido.
Livrai o meio ambiente
desse monstro poluente
que é o Capital atrevido.
X
E ao final desta jornada,
em prol do Supremo Bem,
Santa Mãe Imaculada,
olhai por nossa Belém!
Abençoai vossos filhos
direcionando seus trilhos
para todo o sempre. Amém!


Camilo, Cassie e Alex Centeno, Luciana, Octavio e Ana Celeste

          Passado o Círio, um momento ímpar mobilizou a mim, minha esposa Ana Celeste e toda  a família. O casamento de nossa filha Luciana com o advogado Alex Centeno. Luciana é nossa única filha. Além dela, temos também um único filho, o Rodrigo Octavio. 



Luciana e Rodrigo Octavio
A experiência do casamento de uma filha é indescritível e inesquecível. A gente gera, cria, educa e quer o melhor pros nossos filhos. Ana Celeste, eu, os familiares e amigos, compartilhamos nossa felicidade com os familiares do Alex e os nossos convidados. Em minha fala, na recepção, ressaltei a feliz escolha da Luciana e do Alex, quanto à data do casamento, 19 de outubro que, como falei, pode ser considerado O DIA DO AMOR, pois nele nasceu Vinícius de Morais, o poeta que mais falou e cantou o Amor, e que este ano faria 100 anos.

                        

             Retornando ao 1OO MIL POETAS & MÚSICOS POR MUDANÇAS, na  organização de um evento dessa natureza, a gente interage com muitas pessoas, às vezes só por telefone. É o caso de uma pessoa que ainda não conheço pessoalmente, mas que teve um papel importantíssimo na divulgação do nosso evento, a jornalista Ylen Brito, que trabalha na Assessoria de  Imprensa, da Organização Social Pará 2000, entidade mantenedora da Estação das Docas. Pois bem, após a realização do evento, num telefonema, ela revelou também ser “ do ramo”. Enviou-me este poema de sua autoria, com que encerro esta matéria, convidando-a para estar no palco conosco, no próximo ano:

VOLTA LITERÁRIA

Vírgula, ponto.
Deram-se as mãos, seguiram em frente.
Depararam-se com um longo caminho de palavras de repente.
Repentinamente, correram.
Rumo ao fim, ao início do fim.
Juntaram-se.
Sim.

Ponto e vírgula ;
Em meio ao delírio de vocábulos um sobre o outro.
Almas desvairadas, surrealistas, dadaístas!
A sintaxe era a união destas loucas anarquistas!

- Enfim, ponto final. - Ou não.
Ponto em seguida para uma pobre vírgula.

Apenas o recomeço de uma nefelibata corrida.    

segunda-feira, agosto 12

Manifestações cívicas, reações governamentais e redes sociais distribuídas.

Configuração de uma rede social distribuída

             Desde o mês de junho deste ano, vive-se uma situação inusitada em nosso país. Milhares de pessoas protestando em praça pública, patrimônio público e privado sendo depredado por forças radicais e infiltradas nas manifestações, governantes atônitos dando respostas embasadas em paradigmas ultrapassados, segmentos políticos tentando tirar dividendos da situação, acirramento de ânimos e observadores estupefactos diante dos efeitos da mobilização provocada por uma estrutura pouco ou nada estudada, a rede social distribuída.

       Viciados à gestão pachorrenta e autoritária, os governos estaduais, no primeiro momento, bestificados com os acontecimentos, optaram por  “endurecer” contra os manifestantes, afirmando que não cederiam às pressões para revogar o aumento de transporte coletivo, ponta do iceberg da pauta de reivindicações das massas. Pressionados pela extensão e intensidade das manifestações, resolveram esses governos, “entregar os anéis, pra não perderem os dedos”. Revogaram os aumentos concedidos. Mais aparvalhados ficaram, ao verem que, mesmo com a reivindicação atendida, as mobilizações não só  continuaram, se acentuaram.

        Entrou então, em cena, o governo federal. Inicialmente, tentando  apropriar-se das bandeiras do movimento cívico e utilizá-las em benefício do projeto de poder do atual governo. Primeiro, buscou impingir à Nação, a convocação de uma Constituinte exclusiva para promover a reforma política do país. Proposta rechaçada pelos próprios parceiros da sua base de sustentação, que evidenciaram a inconstitucionalidade da convocação pretendida. Tentou então, o governo federal, fazer passar um plebiscito para ter efeitos ainda, nas eleições do próximo ano, ou seja, “mudemos, mas conosco dizendo o que e de que forma”. Pretensão de aprovação inviável, ante o número insuficiente de parlamentares da base aliada, para enfiar “goela a baixo” a proposta  governamental. Aliás, base aliada cada dia mais infiel, com os olhos voltados para as eleições de 2014.

          Ante as duas derrotas, o governo federal, orientado pelos marketeiros do Planalto, “pinçou” uma das principais reivindicações das manifestações públicas, a solução para o caos da saúde pública brasileira, e adotou o programa “Mais Médicos Para um Brasil Melhor”. Mais um equívoco.

          O programa é inequivocamente de elevado apelo midiático. Veja-se o quanto a propaganda é veiculada,  nos meios de comunicação. E, ao pretender solucionar a questão, buscando “na marra”, ampliar o número de médicos, inclusive com a “importação” de médicos estrangeiros, sem revalidação de seus diplomas no Brasil, entrou o governo, em rota de colisão com a categoria profissional tradicionalmente injustiçada, a dos médicos. Seja pelos baixos salários, seja pela total falta de condições de trabalho. Além de pretender a ampliação do curso de medicina, de 6 para 8 anos, com a obrigatoriedade de os formandos em medicina, atuarem por 2 anos no SUS. 

      Todos sabemos que a situação caótica da saúde pública brasileira decorre da falta de estrutura. E também, da corrupção que grassa nos governos que utilizam o setor saúde para fazer políticalha, em face do volume de recursos alocado ao ministério específico. É só atentar para quais os ministérios são mais disputados pelos partidos políticos, nas composições de governo. Os “olhos gordos” sobre o ministério da saúde não são por vontade de solucionar a situação drástica da saúde pública brasileira, mas porque ali "rola"muito dinheiro.

          Medidas emergenciais são necessárias. Mas não é aumentando artificialmente o número de médicos nem propagandeando os hipotéticos benefícios do programa, que se dará uma resposta satisfatória à questão da saúde. É preciso investir maciçamente na infraestrutura dos postos e hospitais públicos, dotando médicos e paramédicos (enfermeiros, nutricionistas, psicólogos e outros) de condições de trabalho. 

         Para se ter saúde, suprema ironia, é preciso também investir em segurança. Centenas de profissionais da saúde já foram assaltados e violentados, dentro de postos e hospitais. Também, aumentar atabalhoadamente os salários dos médicos, importar médicos estrangeiros, que desconhecem a realidade onde vão trabalhar e sequer falam a nossa língua, jamais serão soluções, se não houver investimento na infraestrutura.  O programa pode até agravar um quadro que já é caótico. Vejam-se os municípios que oferecem até R$ 30.000,00 de salário para médicos e, ainda assim, as vagas continuam não preenchidas. Nenhum profissional responsável embarca em aventura. Sabe ele de antemão, que vai lutar com estrutura deficiente que inviabiliza uma ação minimamente satisfatória. 
.
          Também, se se quer efetivamente cuidar da saúde e não da doença, há que se investir em saneamento básico. A falta de saneamento em todas as cidades brasileiras, pequenas médias ou grandes, é responsável por significativa parcela dos doentes que chegam aos postos e hospitais. Mas nenhum governo investe em saneamento porque “não rende voto”, como dizem as cobras criadas do nosso carcomido mundo político “saneamento vai pra baixo da terra. O povo não vê. É melhor levantar postes e prometer a chegada da luz”.

          São muitas as questões estruturais que precisam ser atacadas de frente, sem  demagogia. Mas o stablishment, o status quo não responde a essas questões. Os poderes públicos encastelam-se em esferas que constroem para si próprios, dificultam o acesso de quem os elegeu e debatem-se na luta pela  manutenção no poder. O que explica perfeitamente a queda de aprovação de governantes e instituições, e o cansaço da cidadania com esse quadro que é mantido pelo cidadão enquanto contribuinte, no país campeão de carga tributária e de falta de retorno dos recursos arrecadados.

    Foi contra essa realidade, penso eu, que as massas foram às ruas  protestar. Não oferecendo respostas concretas, objetivas e não demagógicas, os governos alimentam as condições para a mobilização cívica em busca de soluções e também, para a distorção do movimento, com a infiltração de segmentos como o crime organizado e outros a quem não interessa a transparência e o regime democrático efetivamente participativo.

       O que atordoa mais os governos, é a presença de um elemento fluido, difuso, não identificado, no processo de mobilização de massas. As redes sociais distribuídas, que nada tem a ver com orkuts, facebooks, twitters e outros afins, que no máximo, podem funcionar como instrumentos desencadeadores dessas redes. Redes sociais distribuídas são as que se formam entre pessoas, podendo cada pessoa ou cada nodo de rede, na terminologia técnica, interagir com todas as demais pessoas ou nodos desta ou daquela rede social distribuída.


       É interessante se ter presente que toda rede se forma entre pessoas, sendo o sinal de fumaça, o pombo coreio ou a internet, dependendo do momento histórico, instrumentos utilizados pelas pessoas que interagem entre si, numa rede, sem lideranças ou "igrejinhas” a controlá-la, característica básica da rede social distribuída. 

     A ausência de estrutura formal ou de lideranças permanentes deixa as organizações piramidais, especialmente os paquidérmicos governos, perdidos como “cego em tiroteio”, pois não tem quem identificar, para cooptar, corromper ou simplesmente "desaparecer".  

      Na ilustração abaixo, diagrama de uma rede social centralizada, própria das estruturas burocráticas, de uma rede social descentralizada, onde o poder é compartilhado entre "líderes" e finalmente, de uma rede social distribuída.

[Em breve, artigo específico sobre redes sociais distribuídas]