sábado, abril 17

CANÇÃO PARA HENRY

 

                     Há cada dia somos surpreendidos por fatos trágicos e inexplicáveis nesta verdadeira era das trevas que vivem nosso país e o mundo. Nada mais parece nos surpreender. Mas há fatos que nos abalam ante a sua estupidez e  desumanidade.  Eu coloco nesse rol o assassinato do menino Henry que a mídia divulgou à exaustão desde há duas semanas.

                De outra parte, tive a grata satisfação de ler na mídia impressa e no grupo de whatsapp da Academia Paraense de Jornalismo, o profundo, belo e emocionante texto do confrade de APJ Ernane Malato, que é jurista, escritor e acima de tudo um humanista. Compartilho com meu leitores a:

 

"Em tempo de caos, um convite a contemplar o silêncio"
(Povíncia Marista Brasil Centro-Sul)

     

                                                             CANÇÃO PARA HENRY                                                                                                                                              Ernane Malato

     Por que feriram sua infância, sua inocência, interrompendo o destino que se escrevia? Com que direito interferiram em sua estrada, onde flores e riachos se alinhavam? Que permissão obteve seu algoz para ferir tua arquitetura tênue, em tua constituição delgada e extinguir sua vida que iniciava? 

    Que ousadia foi essa, a de cessar a esperança na sua vida e a sua vida na esperança desta vida? Que autorização foi essa em cruzarem seu caminho e apagarem o sol que começava a nascer? Que atrevimento foi esse o de riscar de sua existência tantas coisas naturais e permitir a invasão de outras tão descomunais? Com qual liberdade alteraram seu futuro, violaram seu presente e soterraram teu passado? 

    Por que cruzaram seu caminho, sua estrada, sua rota, os seus sonhos e a sua felicidade que ainda se formavam? Por que tiraram da sua vida várias vidas, várias idas, tantas voltas que haveriam e oportunidades que sobrevoavam? A título de quê? 

    Que monstruosidade cruzou sua felicidade que ninguém havia sido autorizado a violar? Qual a fera que ultrapassou o seu sagrado umbral, rompendo seu egrégio templo que o Criador elaborou, preservado por milênios pela esfinge guardiã da existência embrionária? Quem decepou as asas dessa ave que se preparava para voar? Que agouro invadiu seus campos férteis, contaminando o pólen que alimentava o verde dos teus céus floridos e o azul de tuas probabilidades infinitas? 

Sua pureza, seu sorriso, seus brinquedos, seus desejos, sua fome, seus murmúrios, suas queixas, suas dores, seus horrores e seus gritos, ultrapassam a sanha da brutalidade que avançava sobre sua luz que ofuscou a escuridão de quem chegava. 

Serafins, querubins e arcanjos de outra faixa universal, estremeçam! Miguel, Gabriel, Rafael, Salatiel – intermediários entre humanidade e divindade – desembainhem vossas espadas! Cumpram vossos ofícios! Enfrentem o Cérbero! Decepem a medusa! Escancarem os portões sagrados desse Parthenon! Soprem vossas trombetas douradas para a queda das muralhas da absurdez! Abriguem a inocente ave que aterrissa em vossas acrópoles! Mantenham sua chama acessa para que ilumine essa história!  

A ferocidade não detém o poema, nem a homenagem que o mesmo realiza no momento em que tantas vidas também partem. Não impede a palavra da transformação, a incontinência da expressão contida, nem o grito de protesto da inconformação retida. O poema não se curva ao que destrói porque enfrenta, luta e reconstrói. 

O poema enfrenta a selvageria da maldade, a insensatez da desumanidade e a demência da obscuridade. Desafia o que desafiou a ordem dos sentidos, a estabilidade da normalidade, a ameaça da aspereza e o temor da carruagem induzida a transportar ovelhas para outra estação. O poema enfrenta a banalidade da maldade porque habita outro mundo que cintila. 

   O poema não se destrói nem é destruído pelo que destrói. Não persegue, sobrevive. Se renova a cada opressão que se desenha no arcabouço social. O poema resiste e em cada amanhecer persiste, porque vive na confrontação da ação que ofende a própria vida. Persiste por não permitir violação e destruição por quem insiste em destruir e violentar. Não se cala, não se conforma, não morre e nele sobrevive o que para sempre deve viver. 

O poema não esquece e homenageia a criança que partiu em todos nós, juntamente com outras tantas violentadas pela alienação, pelo abandono, pela fome, pela miséria, pela marginalidade e pela exclusão.


terça-feira, abril 6

MAQUIAVEL, esse injustiçado.

 


    


            Os termos maquiavelismo e maquiavélico, na linguagem corrente, assumiram um significado pejorativo e maldoso. O uso distorcido é tão frequente e aceito, que a palavra maquiavélico constitui verbete em dicionários como sinônimos do que é pérfido, falso, perigoso. É comum a gente ouvir expressões do tipo – “Cuidado! Esse cara é maquiavélico”. Especialmente se for um político.

         Essa associação do que é sórdido, malicioso com o pensamento de Maquiavel encerra uma tremenda injustiça contra o que propôs Niccolo di Bernardo Machiavelli, filósofo e diplomata florentino, cuja obra literária mais famosa é “O Príncipe” (Il Principe), escrita entre 1513 e 1516 durante o exílio de Maquiavel na França e publicado em 1532, após a morte do autor.

         A distorção do pensamento maquiaveliano decorre de interpretações equivocadas do pensamento de Maquiavel, especialmente em leituras retilíneas que não contextualizam a obra no tempo e no espaço. Na Península Itálica da Renascença (Século XVI) prevaleciam pequenas repúblicas, reinos, ducados, e os Estados Papais que disputavam entre si o controle de territórios. Maquiavel percebia o risco dessa divisão que deixava a península sujeita a invasões por parte das grandes potências europeias. Em “O Príncipe”, ele faz considerações e recomendações ao governante, o Príncipe, sobre como exercer o poder na administração de um país.

         O fundamento da principal obra do intelectual florentino é a distinção entre ordem política e moral cristã, aspecto fundamental para a compreensão da forma dele ver a realidade. Em função dessa análise, ele dá sugestões para a sustentação do poder político institucionalizado.

         À época, os Estados se sustentavam na representação política da classe burguesa que financiava o Estado, representante dos seus interesses econômicos, políticos e ideológicos, reivindicando inclusive o uso legítimo da força. E também na religiosidade cristã que exercia papel crucial na manutenção da ordem social, no comportamento coletivo, influindo significativamente na forma de agir do governante.    

         Maquiavel concorre para o rompimento dessa visão embasada na religião dominante. Em “O Príncipe”, o sábio florentino inovou propondo objetivamente a distinção das ordens política e religiosa, sustentando a separação da política em relação à religião e encarando a política como um campo orgânico, autônomo e distinto da religiosidade, que não deve ser superior ao Estado.

         Essa visão da realidade contrariava poderosos interesses principalmente os da igreja católica. Daí passou-se a usar o termo “maquiavélico” a tudo de mal ou cheio de subterfúgio. É a incompreensão da essência do que propôs Maquiavel: a autossuficiência do poder político do Estado.

Em sua mais conhecida obra, Maquiavel abordou o modo de compreensão do poder político e seus efeitos. A leitura da obra despida de visão preconceituosa induz a que é de responsabilidade do governante a definição de rumos para o Estado. Sendo dele e dos operadores da política o dever de melhor promover a ordem institucional e a paz coletiva.

Não bem compreendidas e se afirmadas fora de contexto, as ideias de Maquiavel podem ser e são frequentemente deturpadas. Em momento nenhum a expressão "os fins justificam os meios", frequentemente atribuída a Maquiavel é encontrada no livro “O Príncipe”. As lições de Maquiavel recomendam aos governantes a maneira adequada para o sucesso de um governo.

Nascido em Florença, em 3 de maio de 1469, filho de Bernardo e Bartolomea di Nelli, uma família toscana, Maquiavel iniciou seus estudos aos sete anos, uma fraca educação básica, até por ser de uma família pobre. Adulto, ele se tornou um dos grandes pensadores renascentistas, com formação humanista. Formado pela Universidade de Florença, antes

30 anos assumiu a função de secretário da Segunda Chancelaria, importante instituição do governo de sua terra natal. No exercício dessa função diplomática ele elaborou tratados e alianças com outros países e consolidou suas qualidades administrativa e governamental.

Ele serviu em Florença por 14 anos. Com o retorno ao poder do governo destituído, Maquiavel foi demitido em 7 de novembro de 1517, acusado de conspiração. Foi preso e torturado o que o levou a se exilar na França, onde fez profunda reflexão sobre tudo o que viveu e presenciou, e escreveu suas principais obras, inclusive “O Príncipe”. De retorno à sua Florença, ele passou a viver recluso e faleceu em 21 de junho 1527.

Além de “O Príncipe”, Maquiavel também escreveu “Relatos sobre os fatos na Alemanha”, “Retrato das coisas da França” e “Discurso sobre a primeira década de Tito Lívio”. No campo da dramaturgia, ele escreveu diversas peças teatrais, sendo a mais famosa, “A mandrágora”, protagonizada pelo jovem Calímaco apaixonado por Lucrécia, casada com o doutor Messer Nicia. Em cinco atos Maquiavel satiriza a corrupção da sociedade italiana.

“O Príncipe” encerra uma teoria do Estado moderno, daí Nicolau Maquiavel ser considerado o pai da Ciência Política Moderna.

 

O autor é Bacharel em Direito e Jornalismo pela UFPA. Foi locutor de rádio e escreve em jornais impressos, sites e no http://blogdooctaviopessoa8.blogspot.com/ Em 2015 editou o livro de crônicas Causos Amazônicos, reeditado em 2018. Em 2020 publicou o romance/documentário Asas de um rio- A saga dos Catalinas na Amazônia. Poeta bissexto, Octávio é imortal da Academia Maçônica de Letras do Estado do Pará e da Academia Paraense de Jornalismo.

* Publicado no jornal eletrônico Ver-O-Fato no dia 2 de abril de 2021.


segunda-feira, abril 5

TEM JABUTICABA NO MEIO DO CAMINHO. CUIDADO!

 


         Não escorregue nem tropece. Muita gente desprevenida comete essa imprudência. Talvez embevecida pela mensagem dos textos que lê, por pressa ou por acreditar que o Dr.Google é infalível, faz afirmações questionáveis. Pra dizer o mínimo.

         É o caso daquele texto que volta e meia a gente lê por aí, sob o título O tempo e as jabuticabas, atribuído a Rubem Alves, ou O valioso tempo dos maduros, mencionando Mário de Andrade como seu autor.

A beleza e a profundidade do texto é indiscutível. Ele trata da atitude madura de não nos importarmos com as coisas irrelevantes da vida, à medida que a gente vai acompanhando as voltas que o mundo dá e conclui que realmente prender-se às coisas pequenas ou ilusórias só atrapalha nossa felicidade.

         Com pequenas variações, dependendo do gosto de quem o posta, o conteúdo do texto que pulula na Internet é mais ou menos este:

         Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver
daqui para frente do que já vivi até agora.

Tenho mais passado do que futuro…
Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas…

As primeiras, ele chupou displicente… mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço…

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades…

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis…

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que,
apesar da idade cronológica, são imaturas…

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral…

As pessoas não debatem conteúdos… apenas os rótulos…

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos…
quero a essência… minha alma tem pressa…

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços…
não se encanta com triunfos…
não se considera eleita antes da hora…
não foge de sua mortalidade..

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade…

O essencial faz a vida valer a pena…
e para mim basta o essencial…

 

Há fortes razões para se afirmar não ser o texto de Rubem Alves e muito menos de Mário de Andrade.

A atribuição a Alves provavelmente é em razão dele ter um livro intitulado Do universo à jabuticaba, editado em 2010, pela Editora Planeta do Brasil Ltda., São Paulo/SP.


Nessa obra, Alves após introduzir na epígrafe aforismos de Neruda, Nietche e Fernando Pessoa, afirma que sua vida se divide em três fases “Na primeira, meu mundo era do tamanho do universo e era habitado por deuses, verdades e absolutos. Na segunda fase meu mundo encolheu, ficou mais modesto e passou a ser habitado por heróis revolucionários que portavam armas e cantavam canções de transformar o mundo. Na terceira fase, mortos os deuses, mortos os heróis, mortas as verdades e os absolutos, meu mundo se encolheu ainda mais e chegou não à sua verdade final mas à sua beleza final: ficou belo e efêmero como uma jabuticaba florida”.

Sem dúvida, o conteúdo do texto itinerante se assemelha, no essencial, à profunda mensagem colocada por Alves sob a rubrica “Minha Vida...”. O que não faculta ao compilador ou a quem o reproduz atribuir a autoria do texto ao mineiro de Boa Esperança. Mas os desavisados aceitam como verdadeira a autoria de Alves e replicam e treplicam especialmente nos meios eletrônicos.   

Mais improvável ainda é o texto ser de Mário de Andrade. Escritor da primeira fase do Modernismo Brasileiro que teve papel importantíssimo nessa fase crucial da Literatura brasileira, Andrade inovou absorvendo os valores e a linguagem das culturas periféricas como a amazônica, mas ele não era dado a temas de natureza existencial como fazia Alves.

Há no entanto um texto menos conhecido no mundo das letras que penso ser o “pai” daquele que é replicado à exaustão e atribuído a autores que não o escreveram. Trata-se de O Tempo que Foge, de Ricardo Gondim, pastor e presidente da Igreja Evangélica Betesda, sediada em São Paulo, e também do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos.

Autor de diversas obras, Gondim publicou em 2007 pela Editora Ultimato Ltda, de Viçosa/MG, o livro Eu creio, mas tenho dúvidas- A graça de Deus e nossas frágeis certezas, que em suas páginas 102 a103 traz:

TEMPO QUE FOGE


“DESCOBRI QUE TEREI menos tempo para viver daqui pra frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicentemente, mas percebendo que faltavam poucas, passou a roer o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sortes.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não vou mais a workshops onde se ensina como converter milhões usando uma fórmula de poucos pontos. Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com propostas de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos. Não gosto de assembleias ordinárias em que as organizações procuram se proteger e se perpetuar através de infindáveis detalhes organizacionais.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturas. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de “confrontação”, para “tirar a limpo”. Detesto fazer acareações de desafetos que brigam pelo majestoso cargo de secretário do coral.

Já não tenho tempo para debater vírgulas, detalhes gramaticais sutis, ou as diferentes traduções da Bíblia. Não quero ficar explicando porque gosto da Nova Versão Internacional das Escrituras, só porque há um grupo que a considera herética. Gosto e ponto final! Lembrei-me de Mário de Andrade que afirmou: “As pessoas não debatem conteúdos, apenas rótulos”. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.

Já não tenho tempo para ficar explicando se estou ou não perdendo a fé, porque admiro a poesia de Chico Buarque e de Vinícius de Moraes; a voz de Maria Bethânia; os livros de Machado de Assis, de Thomas Mann, de Ernest Hemingway e de José Lins do Rego.

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente muito humana, que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita para a “última hora”, não foge da sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja andar humildemente com Deus. Caminhar perto dessa pessoas nunca será perda de tempo.”


 

O autor, Octávio Pessôa, é Bacharel em Direito e Jornalismo pela UFPA. Foi locutor de rádio e escreve em jornais impressos, sites e no http://blogdooctaviopessoa8.blogspot.com/. Em 2015 editou o livro de crônicas Causos Amazônicos, reeditado em 2018. Em 2020 publicou o romance/documentário Asas de um rio- A saga dos Catalinas na Amazônia. Poeta bissexto, Octávio é imortal da Academia Maçônica de Letras do Estado do Pará e da Academia Paraense de Jornalismo.

 


sábado, março 6

ENTRE DUAS GUERRAS

 



         É sui generis a realidade que vivemos. Duas guerras se desenvolvem simultaneamente. Guerras contraditórias e complementares.

         De um lado a guerra do mundo da ciência contra um inimigo invisível, o Covid-19, o vírus que provocou a maior alteração no nosso modo de viver e de interagir com a realidade, que agora se acentua e se diversifica ante as mutações do vírus original.

Com o surgimento do inimigo, num curto espaço de tempo vacinas foram desenvolvidas e testadas nos países mais avançados. Com a validação das vacinas pelas instituições acreditadas, elas passaram a ser aplicadas de forma racional e inteligente na maioria dos países especialmente os do primeiro mundo. E os que tinham condições de fazer e não o fizeram em tempo por motivos inconfessáveis, como é o caso os Estados Unidos, depois tiveram que correr atrás do prejuízo. No Brasil as vacinas foram adotadas depois de muita relutância dos poderes decisórios, sob pressão dos cientistas e da imprensa. Ainda assim, a adoção se deu de forma lenta e relutante, após muita negação da validade do uso da vacina. Isto nos levou à realidade que ora vivemos.

Nesse contexto de pandemia, médicos e paramédicos dedicaram-se e dedicam-se a socorrer as vítimas do terrível vírus, honrando o compromisso de consagrar a vida a serviço da humanidade, à saúde e ao bem-estar dos pacientes.    

A luta é inglória. Esses profissionais são também seres humanos. Sofrem os efeitos das longas jornadas, da estrutura deficiente da maioria dos hospitais brasileiros e do natural cansaço decorrente das condições em que trabalham. Levantamento do Conselho Nacional de Medicina, de outubro do ano passado, revela que até então 58 profissionais haviam morrido em São Paulo. O Estado do Pará vinha em segundo lugar com a perda de 51 discípulos de Hipócrates e o Rio de Janeiro com 50. É certo que a esta altura, março de 2021, esses números estão defasados.

Ainda assim, médicos e paramédicos continuam na sua messe, deixando a família em segundo plano, muitas vezes com filhos pequenos e pais idosos. Quase não tem mais vida social. Enfim, é uma luta sem equilíbrio entre as partes contendoras.

Na contramão disso, desenvolve-se uma guerra paralela com o sinal trocado, estimulada por quem deveria defender a população.

Em primeiro lugar pelo negacionismo leviano e renitente que prevaleceu por largo tempo. A virose seria apenas uma gripezinha. Mediante o afastamento do staff governamental de auxiliares sintonizados com a ciência. Com a negação da importância do uso de máscaras em locais públicos e pelo mau exemplo, estímulo velado ou ostensivo às turbas enfurecidas que apregoam a desestabilização dos poderes da República. Pelo esvaziamento dos setores sociais como Educação e Saúde, com a designação de ministros que nada entendem dos assuntos da respectiva pasta. E altos investimentos na indústria de guerra e facilitação da venda de armas à população, viabilizando o incremento das milícias que já dominam extensos territórios nas capitais e grandes cidades brasileiras. Além da formação de grupos paramilitares acionáveis num estalar de dedos.

Esta guerra é tão perniciosa quanto a dizimação causada pelo Coronavirus, que infelizmente vai continuar matando a população. Com uma particularidade, agora o andar de cima da pirâmide social também está sendo atingida, ao contrário da fase inicial em que as vítimas eram muito mais os brasileiros das classes menos favorecidas.

                                                                                                      

Octávio Pessôa é Bacharel em Direito e Jornalismo pela UFPA. Foi locutor de rádio e escreve em jornais impressos, sites e no http://blogdooctaviopessoa8.blogspot.com/ Em 2015 editou o livro de crônicas Causos Amazônicos, reeditado em 2018. Em 2020 publicou o romance/documentário Asas de um rio- A saga dos Catalinas na Amazônia. Poeta bissexto, Octávio é imortal da Academia Maçônica de Letras do Estado do Pará e da Academia Paraense de Jornalismo. 

sexta-feira, agosto 28

NÃO À TAXAÇÃO DO LIVRO


Octávio Pessôa

 

         Os autores de livros e o mercado livreiro entram na alça de mira do governo federal pelo Projeto de Lei 3.887/2020 que cria a obrigatoriedade de o segmento pagar 12% a título de Contribuição Social sobre Operações de Bens e Serviços, a CBS. A proposta legislativa fere de morte a isenção do pagamento de impostos pelo livro, prevista no artigo 150 da Constituição Federal atual e presente desde a carta constitucional de 1946 para o papel utilizado na produção de livros e revistas, o que proporcionou livros mais baratos e acesso de maior parcela da população à cultura e ao conhecimento.  

         Essa tentativa de retrocesso ocorre quando a média anual de leitura, no Brasil, é de 4,96 livros por pessoa. Enquanto isso, os franceses leem 21 livros por ano, los hermanos argentinos leem 5,54 e na decadente Venezuela esse índice é de 6,64, segundo a Biblioteca Parque Villa Lobos.

         Para o ministro da economia, Paulo Guedes, a isenção tributária do livro no Brasil beneficiaria apenas quem mais pode pagar impostos. Ele argumenta que para compensar o fim da isenção, o governo poderia aumentar o valor do atual Bolsa Família ou mesmo cogitar de um programa de doação de livros.  

         A questão não é assim. A eventual aprovação da tributação de livros é um prejuízo não apenas para o segmento da editoria, mas para todo o Brasil, nas palavras do senador Jean Paul Prates, presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa do Livro, para quem a média de leitura per capta no Brasil é irrisória. Esclarece ainda o parlamentar, sendo em torno de 10% a média em direitos autorais pagos a um escritor, embolsando o governo 12%, ele vai ganhar mais que o autor. Enquanto bancos, financeiras e planos de saúde pagam apenas 5,9%.   

         O sugerido programa de doação de livros à camada menos favorecida da população é questionável, para dizer o mínimo. É uma tática que permite manipulação na escolha de conteúdo, um risco muito grande de seleção de obras a serem beneficiadas apenas segundo o talante do governo de plantão.  O que vai na contramão do princípio que orientou a inserção da imunidade tributária do livro na carta constitucional brasileira– o de facilitar o acesso à cultura e garantir a liberdade de expressão.

 

         A tentativa de acabar com a imunidade tributária do livro no Brasil, por suas consequências danosas, está na ordem do dia.

         No manifesto Em Defesa do Livro, a Associação Brasileira de Editores e Produtores de Conteúdo e Tecnologia Educacional (Abrelivros), a Câmara Brasileira do Livro (CBL), o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) e outras entidades representativas do setor criticaram a tributação sobre livros, evidenciando que “não será com a elevação do preço do livro – inevitável diante da tributação inexistente até hoje – que se resolverá a questão.

         No âmbito local, li a lúcida manifestação do professor Armando Alves Filho, doutor em História e proprietário da Editora Paka-Tatu, responsável pela edição de parcela expressiva dos títulos atualmente produzidos no Pará, em que ele esclarece o retrocesso para o segmento a eventual aprovação da proposta encaminhada pelo governo para o Congresso Nacional.  

         Como escritor, coloco-me ao lado dos meus pares que reprovam a tributação do livro. Sabemos todos, como disse Maurício Gomide em entrevista à TV Senado, o mercado editorial já é muito difícil e a conta da tributação certamente irá para o preço do livro. Espera-se assim, que essa proposta seja barrada no Congresso Nacional.

Concluo ratificando as palavras da colega jornalista e escritora Hulda Rode “O livro é essencial para a humanidade: muda mundos, muda realidades e aproxima continentes. O Imposto trará redução do acesso ao conhecimento, à cultura e à leitura”.

 

 

 


quinta-feira, abril 23

Beato Salu é apenas a bola da vez.





Quem pensou que a derrota da trupe bolsonariana para as forças que impediram o golpe contra as instituições democráticas brasileiras, perpetrada na semana passada significaria seu aquietamento, enganou-se. Isso depois da pantomima da troca do ministro da saúde em plena pandemia do Coronavirus.
A sobrevivência do bolsonarismo depende desses episódios planejados com detalhes pelo que está sendo conhecido como gabinete do ódio encastelado no Palácio do Planalto, para manter a serviço do “mito” a parcela acrítica do eleitorado brasileiro que faz o jogo com precisão e continua endeusando o chefe.
O episódio da ordem do dia é o rocambolesco discurso do funcionário de terceiro escalão guindado a ministro das Relações Exteriores (Chanceler do Brasil), Ernesto Araújo, ideologizando o Coronavirus que estaria a serviço do comunismo internacional. Afirmação que não resiste à análise mais superficial que seja por falta de substância.
Não à toa entre os diplomatas sérios e competentes do Palácio do Itamarati, Ernesto Araújo é conhecido como Beato Salu. Pra quem não sabe, Salu era um personagem de uma das novelas do saudoso Dias Gomes (Roque Santeiro, se não me engano) caracterizado como uma espécie de Antônio Conselheiro, o líder da Revolução de Canudos. Salu em seu discurso não dizia coisa com coisa, era capaz de confundir a grande obra do mestre Picaço com a grande pica de aço do mestre de obras. Apelido muito bem aplicado.
Preparem-se. Quando as repercussões negativas do discursóide se acentuarem e o “chanceler” proporcionar outras estultices à frente de um Ministério que já teve à frente prsonalidades do quilate de Afonso Arinos de Melo Franco, Otávio Mangabeira e Innocêncio Serzedello Corrêa e tantos outros, ele será substituído. Quem sabe por outro do mesmo naipe. A ver. 
Mas com certeza a idiotice do virus a serviço do comunismo internacional não será o o último capítulo da tragicomédia operada por Salu. Outros episódios virão cada vez mais grotescos. Aguardem.

quinta-feira, janeiro 30

CONSTRUINDO A MAÇONARIA DO FUTURO










         Ontem, dia 29 de janeiro de 2020, na presença do Sereníssimo Grão Mestre da Grande Loja do Estado do Pará/Glepa, irmão Edilson Araújo, do Past Grão Mestre José Nazareno Nogueira Lima, de outros dirigentes da Glepa e de diversas Lojas Maçônicas, dei posse aos membros da Diretoria da Augusta e Respeitável Loja Fênix e Fraternidade N° 53, a LFF53 como gosto de chamá-la.
Fato que concluiu ato que se iniciara no sábado passado, dia 25, em que fui empossado no cargo de Venerável Mestre da LFF53. Sem dúvida um momento marcante em minha vida. Após ter dado 67 voltas em torno do Sol, fui escolhido principal responsável pelo destino daquela Loja Maçônica.
Fiquei muito honrado com a presença de todos os irmãos e mais ainda com a presença feminina num evento maçônico em que as mulheres não ficaram apenas ouvindo discursos. Elas usaram da palavra, interagiram conosco, enfim, tiveram participação efetiva, como teve minha esposa Ana Celeste. Isso tudo sem arranhar os princípios e fundamentos maçônicos já que se tratou de uma Sessão Pública de Posse.
Sim. Um momento raro na Maçonaria, mas extremamente necessário a meu ver. Com o valoroso trabalho das mulheres os efeitos da nossa ação são maiores e mais eficazes. Não basta apenas ser o ombro amigo.
Com gestos dessa natureza, a Grande Loja do Estado do Pará e a LFF53 concorrem para desmistificar mitos acerca da Maçonaria. Secreta a Maçonaria foi há séculos, até em razão de circunstâncias históricas. Discreta? Sim, até certo ponto.  
Numa era marcada pela virtualidade, em que a realidade de agora não será a mesma daqui a pouco e em que o casamento da Inteligência Artificial com a Bioengenharia e a Biotecnologia constrói Algorítimos que induzem alterações permanentes sobre a realidade fazendo caducar o recente, sobreviverão as instituições que se adequarem ao futuro, penso eu.
Há muito o que fazer. Por isso ainda candidato, defini como meta de gestão a implantação do Planejamento Estratégico na LFF53, estratégia desenvolvida coletivamente para ser eficaz cujo produto final, o Plano Estratégico, que passa a orientar não só a gestão que o criou, torna-se o Instrumento de Gestão da Loja, um norte para as próximas diretorias. Numa linguagem política, o Plano Estratégico não é um plano de governo mas um plano de Estado.  
Cabe-me agora liderar esse processo de aperfeiçoamento da nossa LFF53 com a ajuda de todos os irmãos e em sintonia com o Sereníssimo Grão-Mestre Edilson Araújo, colocando em prática medida sugerida na última Conferência da Maçonaria Simbólica do Brasil/CMSB, realizada em Brasília, em julho de 2019. Dessa forma nos ombreamos com Lojas Maçônicas do Brasil que já fizeram seu Planejamento Estratégico, a exemplo da Augusta e Respeitável Loja Simbólica Alferes Tiradentes, N° 20, do Oriente de Florianópolis.
E com as mulheres ao nosso lado, tenho certeza, as coisas fluirão mais facilmente na construção do nosso Plano Estratégico e as metas definidas serão implementadas com mais segurança.
Por esse caminho a LFF53 cumprirá a missão histórica da Maçonaria Universal de ser uma verdadeira escola de homens livres e de bons costumes, em constante aprimoramento em prol do bem estar da humanidade.





domingo, setembro 1

À NETA QUE VAI NASCER




Giulia Maria,

Ainda habitavas o ventre materno quando escrevi essa carta para ti. Foi durante o teu Brunch de Fraldas, no dia primeiro de setembro de dois mil e dezenove. Ali mesmo em meio aos familiares e convidados, eu senti uma vontade irrefreável de escrevê-la. Sem constrangimento anotei as ideias e comecei a digitá-la em meu celular.

         A música, um repertório de qualidade na altura exata a permitir o diálogo entre presentes, proporcionou-me também oportunidade de reflexão sobre o significado e a beleza daquele momento. Tudo me estimulava a realizar o meu propósito.



Parentes e amigos confraternizavam a expectativa da tua chegada, degustando saborosas comidas num ambiente bela e sobriamente decorado. O clima era de festa.

       Havia sim muita emoção. Especialmente nos mais avançados no tempo, no outono na Vida como eu gosto de dizer. Ali estavam teus bisavós paternos Haroldo e Arlene mais Felizberto e Liege e teus avós Camilo e Cassie. Também presentes estávamos nós, teus avós maternos, Octavio e Celeste. Além de tios, primos e amigos, muitos amigos a festejar tua breve chegada.

Mas agora, Giulia Maria, só entre nós dois, és a garantia da minha continuidade. Certamente outros meus netos virão. Teus irmãos e teus primos, mas serás sempre a primeira neta, como és a primeira bisneta. Parabéns minha querida.




Eu estudei o significado do teu nome e aprendi que Giulia Maria é “Jovem Senhora Soberana”. Que charme minha neta! E realmente, Maria o complemento do teu nome é o nome da Senhora Mãe de Deus, indiscutivelmente Soberana. Que felicidade.  

Desde quando eu soube que estavas concebida, embora em minha discrição eu procure disfarçar, entrei em estado de graça e em permanente ansiedade pela tua chegada.

Estou louco pra te conhecer, querida netinha. E enquanto Deus me permitir, quero te carregar nos braços, te ver crescer e te dedicar todo meu carinho e amor. Amor de avô que dizem ser pai com açúcar.

Te aguardo.  

sexta-feira, agosto 30

O MEU MAFUÁ DO MALUNGO





                O “culpado” por essa crônica é o meu colega jornalista Elias Ribeiro Pinto, que me introduziu na literatura de Haroldo Maranhão. Sim, eu conhecia Haroldo por saber de sua obra, mas nunca havia lido uma delas.

No embalo da leitura da coluna literária do Elias, fui na abertura da Feira Pan-Amazônica do Livro e Multivozes e me dirigi diretamente ao estande da Imprensa Oficial do Estado do Pará, onde comprei o livro Flauta de Bambu, do Haroldo Maranhão, reeditado pela IOEPA e prefaciado por Elias, um lutador pela preservação da literatura amazônica e O Último dos Moicanos da crítica literária no jornalismo brasileiro. 

Leitor voraz, ali mesmo na Feira comecei a me deliciar com a obra haroldiana.  Dentre tantas primorosas chamaram-me atenção especialmente duas crônicas que se completam aliás um estilo do autor, inaugurar um assunto numa crônica e dar-lhe continuidade na subsequente.

Pois bem, nessas duas crônicas o autor narra o sumiço de um livro que ele tanto prezava. Até por conter autógrafo do autor, um poeta de renome nacional e internacional que Haroldo admirava a ponto de visitá-lo sempre que ia ao Rio de Janeiro.  

Foi esquecimento, furto de uso, má fé, apropriação indébita ou tudo isso junto? O leitor decidirá quando saborear o Flauta de Bambu. Só que depois de anos Haroldo, usando inteligente estratégia, conseguiu tê-lo de volta.  A estratégia? você saberá ao ler o livro.  
         
       Esse fato narrado por Haroldo Maranhão acendeu em mim uma terna saudade. Fez-me lembrar situação semelhante que eu vivi e ainda vivo.

Foi nos anos 80. Vivia-se no Brasil o processo e abertura política e o prenúncio do fim da ditadura de 64. Então, os jornalistas Raymundo Pereira e Mino Carta lançaram uma série de fascículos a que deram o título de Retrato do Brasil. Nesses fascículos, a História do Brasil foi narrada à luz do materialismo histórico desde o Império até aquele precioso momento da redemocratização do país que eu ainda jovem como tantos outros, vivi e participei. (Pena que as conquistas alcançadas correm sério risco de irem para a lixeira da História, na presente quadra da vida nacional). 
   
         Mas sim, desde a leitura do projeto do Retrato do Brasil eu compreendi o quanto ele ia ser interessante especialmente como fonte de pesquisa nos tempos futuros. Por isso, toda semana eu ia até a banca de revista próxima ao meu local de trabalho, adquiria o meu fascículo, lia avidamente e guardava com todo carinho. Suprema glória pra mim foi quando concluídos os capítulos, eu recebi as capas duras para os textos, para as entrevistas com quase todas as figuras da política e economia brasileiras que concorreram para o processo de abertura do regime. Esse volume das entrevistas era de menor tamanho. E além disso havia o box para guardar os gráficos de demonstrações estatísticas dos assuntos tratados.

         Retrato do Brasil era a obra de maior valor histórico e afetivo de minha biblioteca pessoal. Só que a minha boa vontade de ajudar levou-me a emprestar ora para um ora para outro, às vezes um volume, outras vezes a coleção toda. Lembro-me muito bem de uma aluna da UFPA, salvo engano do curso de Ciência Política, que ao devolver-me os volumes, emocionada me disse que a nota máxima que alcançara devia-se muito à leitura daquela obra. Outras vezes emprestei o meu tesouro e devo dizer que, a essa época, era um verdadeiro entra e sai de pessoas no meu escritório. O fato é que um belo dia me deparei com a ausência da minha amada coleção. Ainda cheguei a perguntar a algumas pessoas mas todas me responderam não estar com elas. Com muita pena me resignei a não mais ver aquela que foi a obra mais cara.
   
         Pois é. A leitura das crônicas História do Meu Mafuá e a seguinte O “Mafuá do Malungo”, de Haroldo Maranhão, no gostosíssimo livro Flauta de Bambu me trouxeram à mente esse fato triste da minha vida de eterno aprendiz. Aí eu fico pensando será que terei a mesma sorte que teve Haroldo com sua estratégia, usando os recursos da época? Bom, os tempos são outros, os recursos de comunicação incomparavelmente mais eficientes e eficazes.

O resto é com você que tomou emprestado minha coleção e esqueceu de devolver. Devolva-me mesmo com esse não pequeno atraso e faça um seminovo rsrsrs feliz.
                 


terça-feira, julho 16

A MAÇONARIA E SEU PADROEIRO, OS SOLSTÍCIOS E A RELIGIOSIDADE CRISTÃ




         

         Nas sindicância para a admissão de um novo irmão maçom, é comum a gente ouvir especialmente das futuras cunhadas, as esposas dos irmãos maçons, perguntas estranhas acerca da Maçonaria. É verdade que existe um bode preto cultuado pelos maçons? Nós esclarecemos tratar-se de uma lenda criada deliberadamente para prejudicar a Ordem Maçônica. Outra pergunta frequente é sobre a postura da Maçonaria ante as religiões. Elas se surpreendem ao saber que só o ateu, aquele que não crê em Deus, não pode ser maçom. O requisito para o homem ser maçom é que ele creia em Deus e professe uma fé.
         Isso porque a Maçonaria existe desde tempos imemoriais e a cada época ela adota práticas  e ritualísticas como as religiões o fazem. Assim, na essência, a Maçonaria guarda semelhança com as grandes religiões, mesmo sendo ela uma ordem laica.
         Atualmente no mundo ocidental, a Maçonaria tem tudo a ver com o Cristianismo. Ela também tem um Padroeiro que é invocado na abertura e no encerramento dos trabalhos de uma Loja Maçônica Justa e Perfeita. Esse padroeiro é São João. Qual seria esse São João? Em resposta a essa questão surgem pelo menos quatro respostas: São João da Escócia, São João Esmoler ou de Jerusalém, São João Batista e São João Evangelista.
         Buscando tirar essa dúvida na literatura maçônica, inclusive na internet, deparamo-nos inicialmente com a informação do irmão Guilherme Cândido, que não menciona sua Loja Maçônica e o seu Oriente. Ele informa que o padroeiro da Maçonaria seria São João da Escócia, isso porque nos rituais dos primórdios do Rito Escocês Antigo e Aceito, rito seguido na maioria das Lojas vinculadas à Grande Loja Maçônica do Estado do Pará, invocava-se São João da Escócia. Ressalta ainda não haver evidência da real existência de São João da Escócia. Diz ele que o único santo de origem escocesa com o nome João, oficialmente registrado nos anais da  Igreja Católica é o mártir São João Ogilvie que convertido ao catolicismo aos 17 anos, participou de diversas instituições educativas, juntou-se aos jesuítas em 1597 e foi ordenado sacerdote, em 1610, quando o catolicismo sofria uma grande perseguição.  João Ogilvie morreu na forca por ser leal ao Papa e não reconhecer supremacia, em assuntos espirituais, ao soberano do Reino Unido, de que a Escócia faz parte.
         Outro São João que poderia ser o Patrono da Maçonaria, segundo irmão Tiago Oliveira de Castilho, da ARL Sir Alexander Fleming, do Oriente de Porto Alegre, é São João de Jerusalém também conhecido como São João Esmoler. Os valores que ele praticava o credenciam. Ela era um príncipe do reinado de Chipre afeito à benevolência, à ponderação e à tolerância. Homem casado, após perder a esposa e dois filhos, passou a dedicar-se integralmente ao amor ao próximo e à caridade. Assumiu o sacerdócio e entrou para a Ordem Beneditina. Ele apaziguava brigas, arbitrava disputas, dava conselhos, ouvia as reclamações dos necessitados, procurava corrigir os erros e neutralizar o ódio que prejudicava as pessoas. Ninguém para ele era insignificante que não merecesse sua atenção. Ele desarmava os inimigos usando sua humildade e às vezes ajoelhava-se aos pés dos contendores rogando o recíproco perdão. João tinha uma predileção especial pelos visitantes que iam à Terra Santa em visita ao Santo Sepulcro e os ajudava em tudo o que podia. Por sua messe, no século VII João foi canonizado, com o nome São João de Jerusalém, ou São João Esmoler. Sua postura coincidente com os ideais maçônicos, poderia ele ser o Patrono da Maçonaria.
Para a corrente maçônica mais expressiva e influenciada pela Igreja Católica, são padroeiros da Maçonaria São João Batista e São João Evangelista, em razão da data comemorativa desses santos ser próxima do Solstícios de Verão e do Solstício de Inverno.
Solstícios são fenômenos da natureza que tem um forte componente esotérico e a Maçonaria tem também um componente esotérico. O Solstício ocorre quando a terra, que descreve uma órbita elíptica em torno do sol, alcança o afélio, nome dado ao ponto mais distante em relação ao Sol no movimento de translação que o nosso planeta realiza em torno do astro-rei. Nos solstícios, o globo terrestre sofre os efeitos máximos da inclinação de 23 graus e 27 minutos de seu eixo de rotação em relação ao eixo do movimento de translação em torno do sol, o que explica as estações extremas, o Verão e o Inverno. 
Quando o Sol está em sua posição mais boreal, ou seja, ao Norte, é Solstício de Verão no hemisfério norte, o que ocorre no dia 21 de junho, sendo o dia mais longo do ano. Consequentemente, nesse dia do outro lado do planeta, no hemisfério sul, ocorre Solstício de Inverno com a noite mais longa do ano.
Já no 21 de dezembro, o Sol está em sua posição mais austral, isto é, ao Sul. Aí ocorre o fenômeno inverso. No hemisfério sul ocorre o Solstício de Verão com o dia mais longo e no hemisfério norte, o Solstício de Inverno com a noite mais longa.
 Qual o nexo dessas informações científicas com o assunto Santo Padroeiro da Maçonaria? Tudo a ver. Qual a data comemorativa de São João Batista? Dia 24 de junho. E a de São João Evangelista? 27 de dezembro. Ambas as datas são próximas à data dos Solstícios, fenômenos que tem significados importantíssimos para a Humanidade.
Antes de aprofundarmos esses significados, uma breve menção ao equinócio que é o fenômeno oposto e complementar aos Solstícios. O equinócio se dá quando a terra está no periélio, que é o ponto mais próximo da terra em relação ao sol. No equinócio as noites são exatamente iguais nos dois hemisférios da terra, justificando o termo equinócio que vem do latim aequinotio e significa noites iguais. Quando num hemisfério é o equinócio de Primavera, no outro é o de Outono. E vice-versa.
Retornando aos Solstícios. Na extensa e profunda obra de José Castellani, nome que dispensa apresentação no mundo maçônico, aquele médico, escritor e historiador evidencia os vínculos entre os Solstícios, a Maçonaria contemporânea e o Cristianismo. A primeira observação dele é quanto à época do ano em que as maiores autoridades maçônicas, os Grãos Mestres das Grandes Lojas e os Veneráveis Mestres das Lojas Simbólicas, são empossadas. Essas cerimônias de posse ocorrem sempre no Solstício de Verão ou em data próxima a esse momento ímpar do calendário astrológico de profunda importância religiosa e esotérica.
Registra Castellani que o homem primitivo distinguia duas épocas, uma de frio e uma de calor, o que lhe permitia trabalhar a terra de forma mais propícia e produtiva.  Em função dos Solstícios surgiram os cultos solares, com o Sol sendo proclamado o Rei dos Céus por ser fonte de luz e calor, daí exercer influência marcante sobre todas as religiões e crenças posteriores. E desde as antigas civilizações, o homem imaginou os Solstícios como aberturas opostas do céu, como portas, por onde o Sol entrava e por onde ele saía.
O fenômeno dos Solstícios e seus efeitos personificou, na cultura romana, o deus Janus. Aquele que tinha duas faces simetricamente opostas, uma olhando permanentemente para o passado e a outra olhando sempre para o futuro, graças à marcha pendular do Sol entre o trópico de Câncer, no Hemisfério Norte e o trópico de Capricórnio, no Hemisfério Sul. O nome desse Deus romano é emblemático. Ele deriva de janua, palavra latina que significa porta, razão por que ele era também conhecido como Janitur, ou seja, porteiro, daí que era representado com um molho de chaves na mão, significando o guardião das portas do céu. Pela tradição cristã, a alegoria de Janus foi personificada em São Pedro, o Porteiro do Paraíso, só que sem qualquer relação com o Solstício.
O Solstício do trópico de Câncer, 21 de junho, é considerado o Solstício da Esperança e lembra São João Batista. Refere-se à porta que as almas mortais atravessam, a Porta dos Homens. O Solstício do trópico de Capricórnio alude a João Evangelista que é reverenciado em 27 de dezembro. É o Solstício do Reconhecimento, a porta atravessada pelas almas imortais, que é considerada a Porta dos Deuses. Para os antigos egípcios, o Solstício de Câncer era consagrado ao deus Anúbis e os gregos o atribuíam ao deus Hermes. Anúbis e Hermes são, na mitologia desses povos, os encarregados de conduzir as almas ao mundo extraterreno.
O simbolismo cristão vai ao encontro, ou seja, no mesmo sentido dessa interpretação mitológica. Para a Maçonaria, as festas solsticiais são em última análise, as festas de São João Batista e de São João Evangelista. Essa visão guarda forte relação com o deus romano Janus e suas duas faces – o futuro que deve ser construído e o passado de que se deve tirar lições. Na visão simbólica, no fim de cada ano e começo de um a Ano Novo, o passado e o futuro realizam uma transição marcado pelo nascimento de Cristo. O João Batista anuncia a vinda de Jesus e João Evangelista propaga a sua palavra.
A semelhança entre as palavras Janus e Joannes – João em hebraico, Ieho-hannam , que significa graça de Deus – facilitou a troca do Janus pagão pelo João cristão, substituindo uma tradição pagã que se chocava com o cristianismo. E assim os dois São João, o Batista e o Evangelista, foram associados aos Solstícios, o de Verão e o de Inverno, e presidem as festas solsticiais.
Outro dado interessante evidenciado por Catellani é a configuração da constelação de Câncer. As duas estrelas principais se chamam Aselos – do latim Asellus diminutivo de Asinus, ou seja, jumento, burrico. Na tradição hebraica, as duas estrelas se chamam Haiot Nakodish que significa animais de santidade. E são designados pelas duas primeiras letras do alfabeto hebraico, Aleph e Beth, correspondentes ao asno e ao boi. Diante delas, há um pequeno conglomerado de estrelas denominado, em latim, Praesepe, que significa presépio, estrebaria, curral, manjedoura. Como nasceu Jesus Cristo? Ele nasceu em 25 de dezembro sob o signo de Capricórnio, durante o solstício de inverno, sendo colocado em uma manjedoura, entre um asno e um boi.
É importante que se diga que essa data de nascimento de Cristo é puramente simbólica. Para os primeiros cristãos, Jesus teria nascido em julho, sob o signo de Câncer, quando os dias são mais longos no hemisfério Norte. O sentido cristão, no plano simbólico, aborda a Porta dos Homens, ou seja, o Cristo ser humano. Mas Jesus é o ungido, o Messias, o Cristo, na teologia cristã, sendo o polo complementar, a Porta de Deus, sob o signo de Capricórnio. Torna-se assim, compreensível a dualidade.
Um elemento material e um religioso influíram na determinação da data de 25 de dezembro. O material refere-se ao hábito do primeiros cristãos de festejar o nascimento de Jesus Cristo enquanto os romanos festejavam o deus Baco. Entregues aos folguedos e orgias, os romanos reduziam a carga de perseguições aos cristãos.
         O aspecto religioso da determinação da data 25 de dezembro remonta ao Mitraísmo, religião de mistérios surgida na Índia que se difundiu pela Pérsia e chegou ao Médio Oriente, espalhando-se pelo império romano nos séculos seguintes, face à forte adesão de seus soldados ao Mitraísmo, termo que vem de Mitra, uma divindade indo-iraniana que remonta ao segundo milênio a.C. Consta que o imperador romano Teodósio I proibiu a prática dessa religião, no final do terceiro sécuolo da era cristã.  
         Os adeptos do Mitraismo reuniam-se na noite de 24 para 25 de dezembro, a mais longa e mais fria do ano, numa festividade chamada Natalis Invicti Solis, que significa nascimento do Sol triunfante. Durante toda a fria noite eles ficavam fazendo oferendas e preces pela volta da luz e do calor do Sol que era comparado ao deus Mitra. O cristianismo, ao fixar essa data para o nascimento de Jesus, identificou-o como a Luz do Mundo, a luz que surge depois das prolongadas trevas.
Há muito mais aspectos simbólicos na temática dos padroeiros da Maçonaria e nos Solstícios. Uma no entanto se evidencia, a de que na dualidade está o princípio da vida. Diante de Câncer e de Capricórnio, dos dias mais longos do verão e dos mais curtos do inverno, do São João do inverno com as trevas e a Porta de Deus e do São João do verão com a luz e a Porta dos Homens, o Natal de Cristo e os Solstícios são oportunidades de reflexão sobre o passado e de prospecção acerca do futuro, a exemplo do deus Janus. Momento de olharmos, do ponto em que estamos, o que temos sido e o que pretendemos do futuro. Não à toa nas festas de fim/início de ano desejamos o que? Feliz Natal e um Bom Ano Novo. Esses votos adquirem maior significado quando se tem a exata dimensão dos Solstícios e do   Nascimento de Cristo.
Octavio Pessoa – Mestre Maçom da Loja Fênix e Fraternidade 53, da Grande Loja Maçônica do Estado do Pará e membro efetivo da Academia Maçônica de Letras do Estado do Pará.