quinta-feira, dezembro 23

O QUE É O NATAL?

Faço minhas as palavras do autor deste texto e dedico a meus leitores e leitoras, desejando que o Natal seja tudo isto e muito mais:


“O que é o Natal?”

Se tens amigos, busca-os! O Natal é encontro.
Se tens inimigos reconcilia-te! O Natal é paz.
Se tens pobres ao teu lado, ajuda-os! O Natal é dom.
Se tens soberba, sepulta-a! O Natal é humildade.
Se tens dívidas, paga-as! O Natal é justiça.
Se tens errado, converte-te! O Natal é graça.
Se tens trevas, acende o teu farol! O Natal é luz.
Se tens tristeza, reativa a tua alegria! O Natal é gozo.
Se tens ódio, esquece-o! O Natal é AMOR.”

sexta-feira, dezembro 10

VAMOS AJUDAR UMA FAMÍLIA A SE REENCONTRAR

O Filipe Rodrigues (Balrog), Tenente Rodrigues, formado na turma MEC-07 do ITA, está a procura de parentes dele- avó e tia, que, se ainda vivas, provavelmente moram aqui no estado do Pará. Vamos ajudá-lo.

A história é emocinante. O pai do Filipe, Sr. Antonio Rodrigues Moreira, nunca conheceu ou tem apenas lembrança desses parentes. Ele nasceu no Pará, em 1945 e foi registrado no Cartório de Nova Timboteua.

A família que o criou diz que Antonio foi deixado pela mãe, dentro da casa de moradia daquela família e desapareceu. Contam que a irmã do Seu Antonio (tia do Filipe) foi doada para uma família influente da cidade de Nova Timboteua, a família Falcão, à época dos fatos, 1946/47. Quem o criou não gosta de comentar nem de dar maiores informações sobre as origens de Antonio.

Particularmente, o Filipe não acredita que a avó dele tenha abandonado os filhos e desaparecido. E tudo o que Seu Antônio quer é ter informações sobre suas orígens e, se possível, abraçar sua mãe e sua irmã.

O Filipe diz que Seu Antonio, hoje com 65 anos, sofre bastante, especialmente em épocas como a que agora se aproximam, Natal e Ano Novo. Como na Páscoa e principalmente no Dia das Mães. E com o avançar da idade, Seu Antonio fala muito sobre a necessidade de ficar em paz com suas origens, chora várias vezes, imaginando a possibilidade de morrer sem conhecer a mãe e a irmã, que ele acredita, ainda estão vivas.

O maior sonho do Seu Antonio, é encontrá-las. Poder abraçá-las, dizer o quanto as ama; e reconstituir o vínculo que foi quebrado em tenra infância, em consequência do que, ele tanto sofre.

O Filipe já tentou encontrar suas avó e tia, através de telefonema para o Cartório de Nova Timboteua. Em vão. Quem o atendeu se limitou a dizer que não encontrara nenhum registro com os nomes informados.

Bem. São os seguintes os nomes dos parentes do Filipe:

Avô: MANUEL RODRIGUES MOREIRA- falecido por volta de 1947.

Avó: RITA MARIA DA CONCEIÇÃO. Filipe estima que, se ela estiver viva (se Deus quiser, está), deve ter 84 anos.

Tia (irmã do seu Antonio): JUSCIREMA RODRIGUES MOREIRA, a que foi doada para a família Falcão. Filipe supõe que o nome dela tenha sido mudado, pela família que a adotou. Se viva estiver, ela está agora, com 63 anos.


Eu tomei conhecimento desse drama familiar, pela minha irmã, Augusta que, por sua vez é mãe de meu sobrinho Márcio Felipe, também formado pelo ITA.

Já adotei ou estou adotando as seguintes medidas:

*Acionei a equipe do Jornal Liberal 1ª Edição (TV Liberal, afiliada da Rede Globo) que semanalmente dedica um programa à localização de pessoas desaparecidas. Fiz isso através do meu conterrâneo, colega jornalista e irmão de Maçonaria, Salomão Mendes, apresentador do Bom Dia Pará.

* Vou conversar sobre o assunto com o meu amigo Padre Paulo Falcão. De repente, pode a família Falcão a que ele pertence ser aquela para a qual a irmã do seu Antonio foi doada. O detalhe é que o Padre Falcão tem origens interioranas.

* Vou conversar com uma secretária daqui de casa, que tem parentes em Nova Timboteua.

* Estou colocando este assunto no meu blog e lincarei no twitter. Além de acionar minha rede de relacionamento.

Você que está lendo este texto, faça o que você puder fazer, na medida que você tenha informações sobre essas pessoas e/ou família.

Você pode informar para este Blog ou para meu e-mail
octavio.pessoa.ferreira@gmail.com;

para o Filipe (filipersmoreira@yahoo.com.br);

ou diretamente para o Seu Antônio: (22) 2630 9331 (22) 2630 9331; (21) 86773788 (21) 86773788

Vamos ajudar Seu Antonio a ter efetivamente, um FELIZ NATAL e um ANO realmente NOVO com a família reunida.

OCTAVIO PESSOA

quinta-feira, dezembro 9

ÉS BOM EM PORTUGUÊS?

A resposta correta é:

"Maria toma banho porque sua. Mãe, disse ela, pegue a toalha".


para a frase " MARIA TOMA BANHO PORQUE SUA MÃE DISSE ELA PEGUE A TOALHA ", que coloquei no Twitter e por e-mail à minha rede de relacionamento.

Trata-se na verdade, de de um teste realizado em um curso na American Airlines. Na frase proposta, cabe à pessoa colocar 1 ponto e 2 vírgulas para que a frase faça sentido.


A 'pegadinha' está no fato do uso do verbo suar, confundindo com o pronome possessivo (sua).. A Língua Portuguesa é fogo, mesmo.


OCTAVIO PESSOA
"O maior dom é o da aprendizagem, que só se completa se transmitido a outras pessoas"

quarta-feira, dezembro 8

ATIROU NA CABA, ACERTOU NA MULHER

Promessa é dívida. Aqui estou prá resgatar o compromisso de contar o causo do candidato nas últimas eleições, que desconfiado da fidelidade de suas “cabas” eleitorais, acabou acertando na mulher dele. Recebi muitos e-mails de curiosos querendo saber quem foi o político. Conto o milagre, mas não digo o nome do santo.

Ele botou na cabeça que era hora de iniciar, prá valer, uma carreira política. Filhos criados, empreendimentos se desenvolvendo, a ele só interessava ser deputado federal, procurando esquecer da tentativa que fizera, tempos atrás de tornar-se vereador, quando, como nessa nova investida, não obteve sucesso.

Foi buscar na Grécia antiga um método infalível que, na avaliação dele, lhe permitiria conseguir os mais de cem mil votos necessários. Acercou-se de sábios, que embalavam suas idéias e o estimulavam a investir maciçamente campanha dele. Segundo ele próprio, o investimento não foi pequeno. Mas teria sido apenas uma ínfima parcela de um grande negócio que fizera. Por isso, tudo o que empregasse na campanha seria pouco, uma vez que ele estava predestinado a redimir o povo paraense de seu estado de miséria, mesmo vivendo em um estado rico. Ele dizia isso, convictamente em todas suas prosas. E o pior, acreditava no que estava dizendo.

Conhecido intelectual paraense, ao saber por sua empregada doméstica do discurso do candidato, comentou que o Dr. Simão Bacamarte, da obra O Alienista, de Machado de Assis, albergaria o candidato, na Casa Verde, da Rua Nova da cidade imaginária de Itaguay, junto a João de Deus, aquele que passou a se sentir deus João e prometia o reino dos céus a quem o adorasse e as penas do inferno aos demais; e daquele que narrava às paredes sua árvore genealógica: “Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou Davi, Davi engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque engendrou o marquês, o marquês engendrou o conde, que sou eu”.

Não tenho elementos nem formação prá concordar ou não com essa tese. O que consta é que o preço da aventura, aliás, da campanha, não foi pequeno. O candidato teria sido visto lá pras bandas de Castanhal, distribuindo pacotes de mil reais a pretensas “lideranças” comunitárias, que estouravam a grana em cachaça e muita curtição. Até encontrar outro bobo, prá repetir a façanha.

Mas ele se orgulhava de haver adestrado muita gente, prá convencer os eleitores da veracidade de sua promessa redentorista. Além da remuneração em espécie, o candidato fornecia também a alimentação prá sua gente. Alimentação essa feita em sua própria casa, pela abnegada esposa, senhora muito prendada e primorosa nas artes da cozinha. Ele gastava uma grana no atacado e fazia economia de palito.

Talvez por ter recebido alguns “toques", ele passou a desconfiar da fidelidade de suas “cabas” e resolveu apurar a fidelidade das meninas. Como apurar essa fidelidade, era a sua angústia. Ele não podia compartilhar sua agonia nem com a mulher, nem com os sábios que o cercavam. Os sábios, nessa altura, eram todos suspeitos. Depois de muito matutar, uma idéia luminosa acendeu em sua mente iluminada. Passou o resto do dia providenciando os apetrechos e selecionando os locais onde se daria o flagra.

De manhãzinha, sem fazer nenhum barulho, para não acordar a esposa que tinha um dia de trabalho pela frente, saiu de mansinho. Na sala, vestiu o disfarce. Barba e bigode postiços, óculos escuros e chapéu de aba grande, calça, camisa, sapatos, tudo totalmente diferente do que costuma usar. Saiu da garagem com a velocidade que pode. Estacionou o carro a dois quarteirões do local onde se daria o flagra e dirigiu-se ao ponto em que se encontravam três “cabas” eleitorais, que batiam gostoso papo.

O candidato caminhou em direção a elas e à medida que se aproximava, diminuía o passo, estimulando uma abordagem. Queria ouvir o discurso para o qual elas foram adestradas. E nada. Percebeu apenas um olhar de quem diz: quem será esse doido? Seu humor foi se alterando. Passou uma segunda vez e uma delas ainda lhe pediu um cigarro. Com um brusco grunhido, respondeu que não tinha cigarro. Não queria que reconhecessem sua voz. O sangue lhe subiu à cabeça quando, olhou para trás e viu seus santinhos irem parar na sarjeta. Dirigiu-se a outros pontos de ação eleitoral, repetiu a estratégia e não sentiu nenhuma diferença. Lá pras bandas do Guamá, uma das “cabas” ainda se insinuou prá cima do “desconhecido”, mas doutrinação de redenção do povo paraense ou entrega de santinhos, necas de catibiribaçu, como diria o comendador Mário Sobral.
No final da manhã, retorna para casa com a veia pastora quase prá espocar, de tanta raiva. Da boca uma baba grossa escorria, sujando o bigode que ameaçava cair. Entrou em casa com mais de mil. A esposa, de costas, com a bandeja cheia de quentinhas, o almoço das meninas, virou-se e caiu desmaiada, tudo indo ao chão, quando ouviu aquele grito estentóreo:
- PAAAAAAAAAAAAAAAARA. Não tem mais comida prá (o resto da frase é impublicável).
Só que ex-quase redentor do povo paraense esquecera de tirar o disfarce.
Dizem as más línguas que a menstruação da mulher dele “subiu” e só deve voltar daqui a quatro anos, quando ele tentar novamente se eleger deputado federal.

*Jornalista, advogado e auditor federal de controle externo.
e-mail: octavio.pessoa.ferreira@gmail.com
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segunda-feira, novembro 1

UM REGUFFE SÓ NÃO FAZ VERÃO

Se “Uma andorinha só não faz verão”, um Regufe só também terá dificuldade de fazê-lo. Quem é ANTONIO José Machado REGUFFE?

É um jornalista e economista nascido no Rio de Janeiro e criado em Brasília que se elegeu deputado federal pelo Distrito Federal, nas últimas eleições, com uma votação proporcionalmente considerada, maior que o palhaço Tiririca. Sim, o eleitorado de Brasília é muito menor que o do estado de São Paulo. De cada cinco votos dos brasilienses, um foi para Reguffe. Ele obteve duzentos e sessenta e seis mil e quatrocentos e sessenta e cinco votos, o equivalente a quase dezenove por cento do eleitorado do Distrito Federal.

Qual o segredo para essa façanha? A coerência entre o discurso e a prática, durante seu mandato de deputado distrital, conquistado em 2006. Deputado distrital é o equivalente, no Distrito Federal, aos deputados estaduais, nos estados.
Ou seja, o deputado Reguffe está concluindo seu primeiro mandato de deputado distrital e no próximo ano, assumirá uma cadeira na Câmara dos Deputados. O que Regufffe se propôs a fazer e o fez, nos quase quatro anos, na Câmara Legislativa de Brasília?

Primeiro, abriu mão dos décimo quarto e do décimo quinto salários, prerrogativa dos deputados, para igualar-se a todos os trabalhadores que ganham apenas treze salários; eliminou 14 vagas de assessores e diminuiu a ajuda de custo de seu gabinete. Com isso, economizou aos cofres públicos mais de R$ 53 mil por mês, num total de R$ 3 milhões, nos quatro anos de mandato. Dinheiro que poderia ser empregado em educação, saúde, segurança pública, e não, por exemplo, para os deputados distritais terem assessores em excesso.

Com desprendimento sincero, Reguffe não é nenhum milionário, o deputado ficou à vontade para aprovar projetos de lei sintonizados com os interesses da cidadania e de rejeitar aqueles que não consultam os interesses públicos, independentemente de terem sido apresentados pelo governo ou pela oposição.

E graças a essa rara independência, viu serem aprovados projetos de lei de sua autoria como o que concede bônus-desconto de 20%, ao consumidor que reduz seu consumo de água, tomando como base o consumo do mês do ano anterior. Projeto esse, que está sendo copiado por várias assembléias legislativas, em todo Brasil. Aprovou também, o que incentiva o uso de bicicleta, obrigando a instalação de bicicletários nos centros comerciais e bancos. O parlamentar formulou ainda, várias denúncias, exercendo efetivamente o papel de fiscal da aplicação dos recursos públicos, que todo parlamentar deveria exercer.

Nas últimas eleições, Reguffe votou no primeiro turno em Marina Silva. No segundo, não apoiou nem Serra nem Dilma, por não se sentir representado seja pelo PT ou pelo PSDB, sendo o partido a que é filiado, o Partido Democrático Trabalhista- PDT, da base de sustentação do governo federal, para onde foi levado por Cristóvam Buarque.

Nas eleições de Brasília, Reguffe apoiou Agnelo Queiroz para o governo. Fez isso porque considera que Roriz já governou a cidade por 14 anos e já demonstrou sobejamente a que ele veio. E Agnelo representa um novo caminho, outra alternativa para Brasília, apesar de, pelo gosto de Reguffe, Brasília merecer algo diferente do PT e de Roriz.

A fórmula é essa. Coerência entre a ação e discurso de campanha. No exercício de seu mandato de deputado distrital, Reguffe foi coerente com seu discurso, o que explica seu sucesso na disputa à Câmara dos Deputados.

Para o novo deputado federal, a discussão de uma reforma política, no Congresso Nacional, é urgente e necessária. “Este país precisa de uma reforma política profunda e urgente. As pessoas hoje não se consideram representadas pela classe política e há um poço que separa representantes de representados. Nós vivemos em um Estado Democrático de direito, mas não vivemos em um Estado Democrático de fato. Há uma crise na nossa democracia representativa que é culpa dos personagens, dos desvios éticos inaceitáveis, e também, culpa do sistema”, diz o deputado que resume sua proposta em cinco pontos.

O primeiro é o fim da reeleição para cargos executivos e a proibição de mais de uma única reeleição para cargos legislativos. É preciso oxigenar a política constantemente, quebrar vícios e renovar a política de uma forma constante, afirma ele.

Segundo, a instituição do voto facultativo no Brasil, vale dizer, e o fim do voto obrigatório. O resultado do voto obrigatório, para Reguffe, é o Tiririca. Com o voto facultativo, os Tiriricas não seriam eleitos. Além do que, como é sabido, o voto obrigatório dá margem a todo tipo de influência do poder econômico. É preciso trazer mais consciência ao gesto de votar.

Terceiro, o voto distrital. Para Reguffe, hoje há uma distância enorme entre representantes e representados, “e precisamos diminuir esta distância. A política tem de se tornar mais acessível”.

Voto distrital é aquele em que a circunscrição eleitoral é dividida em diversos distritos e o parlamentar representa os interesses de determinado distrito, tornando-se mais fácil o controle da ação parlamentar por seus eleitores. Trata-se de um sistema presente em diversos países europeus e no Chile.

Neste ponto, referindo-se às campanhas em Brasília, diz o parlamentar, “os candidatos têm de fazer campanha no Distrito Federal todo, tornando-se muito caro. Se diminuir a área geográfica, você acaba barateando a campanha”

Quarto ponto, instituição de um sistema de revogabilidade de mandatos parlamentares. Pela idéia de Reguffe, o candidato teria que registrar suas propostas de campanha junto ao respectivo TRE ou TSE, que registraria em seu site, os compromissos de cada candidato. Uma vez eleito, qualquer eleitor, tendo ou não votado no parlamentar, poderia pedir, na Justiça, de volta o mandato de quem descumprisse qualquer um dos compromissos de campanha.

O último ponto da proposta de Reguffe é a proibição de doações privadas, com o financiamento das campanhas feito exclusivamente pelo fundo de financiamento das campanhas eleitorais. Sendo esse fundo diferente do proposto no projeto de lei que hoje tramita no Congresso Nacional. Em linhas gerais, pela proposta Reguffe, o TSE e os TREs fariam uma licitação para a contratação de gráfica e produtora que imprimiriam e gravariam o material de divulgação de todos os candidatos, com os mesmos tamanho, quantidade e formato, permitindo assim, igualdade de condições entre os disputantes das eleições. “Hoje há uma promiscuidade enorme entre público e privado”, diz ele, “e esta nova regra daria uma chance maior de uma pessoa digna disputar uma eleição, em condições menos desiguais”.

Este é o resumo das idéias do deputado distrital e deputado federal eleito, Antonio Reguffe. O bom senso do leitor é suficiente para o juízo de valor dessas propostas.

Repercuto aqui, é o que poucos canais jornalísticos – televisivos, radiofônicos ou impressos - tiveram coragem de trazer a público: o “novo” que emergiu nessa última campanha eleitoral.

E o novo incomoda. A reação dos pares de Reguffe na Câmara Legislativa do Distrito Federal, até onde sei, não foi pequena nem episódica. Foi contundente e constante. No início, as vivandeiras do “não vai dar certo” ou do “o que é que esse rapaz está querendo?” tentaram confundir, perante a opinião pública, a postura ética, honesta e acima de tudo, inovadora de Reguffe, procurando igualá-lo a Collor de Mello, caçador de marajás.

Não colou. Pelo contrário. Quando veio à tona o suprassumo da podridão do sistema encastelado nos poderes constituídos do Distrito Federal - o escândalo do mensalão da Câmara Distrital de Brasília, que levou à prisão o governador Arruda e a quadrilha que o rodeava, formada inclusive por parlamentes - Reguffe não só passou ao largo de qualquer acusação, como influiu desde o início do processo e sua postura foi decisiva, para que tudo não terminasse em pizza, ainda que solução dada ao episódio, não tenha sido a desejada por Reguffe.

O embate estabelecido ainda na Câmara Legislativa do Distrito Federal é a velha disputa entre a criatividade e a mediocridade, em que a mediocridade não precisa articular-se deliberadamente, porque ela já é naturalmente articulada contra o novo, quase sempre isolado. É o medo dos medíocres se perder privilégios e favores, conquistados à socapa, nas sombras e desvãos dos sistemas podres, porque sabem que às claras não sobrevivem.
Exerço aqui, meu papel cidadão de compartilhar informações sonegadas solenemente pelos canais de comunicação de maior audiência, por motivos óbvios. Trago as teses reguffianas para discussão, convocando meus leitores à reflexão sobre elas. Quiçá as aprimoramos e as enriquecemos, concorrendo assim, para a tão sonhada mudança das regras atuais que forçam as pessoas dignas, ainda que vocacionadas para a vida pública, a fugir do “mundo da política”, certas da sordidez que prevalece nesse mundo, em que prevalecem os mentecaptas, com as honrosas e felizes exceções.
Por último, externo minha angústia diante desse quadro e manifesto minha aspiração por que outros Reguffes surjam na vida nacional, para vislumbrarmos um futuro mais justo, fraterno e humanístico para as futuras gerações.
Reguffe é, a meu ver, a andorinha do adágio popular, que precisa com urgência, de outras andorinhas para que o verão possa ser feito.

OCTAVIO PESSOA – advogado, jornalista e auditor federal de controle externo
E-mail: octavio.pessoa.ferreira@gmail.com
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domingo, outubro 31

MORTO SÓ DAQUI A POUCO

Havia prometido não mais tratar do assunto velórios. Mas não resisto em compartilhar com vocês mais este causo que tem como mote, na verdade, outro tema que também rende farto manancial de argumentos para chargistas e cronistas - as campanhas políticas. E a campanha deste ano não foi diferente. Houve situações pitorescas e hilárias, como a do candidato que, desconfiado da fidelidade de suas “cabas” eleitorais, resolveu dar um flagra em cima delas e sobrou prá mulher dele. Mas esta fica prá próxima. Vou contar agora, o episódio que ensinou ao candidato a precaver-se, em campanha política, até com notícia de presunto.
Já era esperada há dias, a hora daquele correligionário ir prestar suas contas com o Todo Poderoso. Pessoa afável e de bom trato, seu estado terminal deixava o político apreensivo. Na última visita do candidato a deputado ao candidato a defunto, aquele designou um parente deste, prá mantê-lo sempre informado quanto ao avanço (retrocesso eu acho mais adequado) do quadro de saúde de quem, na avaliação do político, estava macambúzio, sorumbático e nauseabundo. Se o coitado batesse a caçoleta, não importava a hora, era prá notícia ser dada imediatamente. O quase deputado se sentia no dever de expressar seus sentimentos aos amigos e parentes do infortunado, o quanto antes. De preferência, antes dele chegar ao cômodo determinado por São Pedro, prá seu descanso eterno. A medida era necessária e principalmente, estratégica. Afinal, todos ali, eram seus eleitores.
Prá variar, a Lei de Murphy – se algum erro é possível de se dar, prepare-se, porque ele vai acontecer - aconteceu. O político estava no extremo oposto de sua base eleitoral, quase fechando acordo com um candidato a outro cargo eletivo, acordo que seria muito bom prá ambos os lados (dizem as más línguas que o candidato não se elegeu porque perdeu esse acordo), quando o celular tocou para anunciar que o homem tinha esticado as pernas de vez.
Candidato, assessor e motorista voaram pelas estradas esburacadas de terra batida. Muitos solavancos depois, chegaram à choupana do desencarnado. Do lado de fora, muita gente se aglomerando. O motorista, solidário, começa a dar pêsames aos parentes e amigos do falecido, parecia até que ele era o candidato. Enquanto isso, o propriamente dito e seu assessor vão entrando com beira na pequena moradia de quarto e cozinha.
Como todo defunto que se preza, aquele também estava espichado em cima da única cama, no quarto de terra batida, coberto por um lençol. Candidato e assessor se entreolham assustados ao perceber que a fina coberta subia e descia, subia e descia. Quando o motorista finalmente chega esbaforido, ao pequeno cômodo, e prossegue os cumprimentos aos parentes e amigos, ao redor do defunto, que recebiam os sentimentos entre tartamudos e desconfiados, o candidato comenta com o motorista, falando entre os dentes, “o lençol tá se mexendo. Nós achamos que o defunto tá vivo”. Nada disso, retruca o motorista. E pálido, acrescenta “ele não pode fazer isso comigo. Deve ser uma corrente de ar que está balançando esse lençol”.
Diante da situação inusitada, o quase deputado sentindo-se numa saia justa e não sabendo como cumprimentar as pessoas, chama de lado o informante da morte e cobra uma posição. “Afinal, ele morreu ou não morreu?”
- Olhe, seu deputado, prá falar a verdade, quando eu liguei pro sinhô, o cuirão tava morto, morto. Mas paresque ele resolveu vortá. Vai vê que a arma dele vortô prá se dispidí do sinhô. Num se avexe, não. Pode dá os pesos pro pessoal. Daqui a pouco ele morre de vez.
Octavio Pessoa – jornalista, advogado, auditor federal de controle externo.
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quinta-feira, outubro 21

Aos 97 Boi Bumbá Caprichoso gera uma filha.

Como homenagem aos 97 anos do boi bumbá Caprichoso, Caprichosa foi o nome dado à
primeira bezerra produto de IATF ( Inseminação Artificial em Tempo
Fixo ) nascida em 20 de outubro de 2010 em Parintins. Faz parte de um
projeto do IDAM Parintins cuja Unidade de Observação fica na
fazendinha Vovô Octacílio, Rodovia Eduardo Braga Km 1. O IDAM fornece
a logística para compra e envio de Nitrogênio Líquido para a
conservação de sêmen e acompanhamento técnico, a contra partida do
criador é muito importante com a estruturação da propriedade, sanidade
do rebanho, aquisição de sêmen e equipamentos para inseminação etc...
O projeto é coordenado no IDAM Parintins pelo Médico Veterinário da
Octacílio José Pessoa Ferreira Neto. A Bezerra caprichosa se trata do
primeiro produto oriundo do projeto que também já se estende a outros
criadores do município, é filha de uma vaca mestiça leiteira
inseminada pelo profissional veterinário em 16 de janeiro do corrente
ano, foi utilizado sêmen de um touro Holandês Americano de nome Rod
End Marshal Basic comercializado no Brasil pela ABS Pecplan de Uberaba
( MG ). O sucesso do projeto é certo e muito contribuirá para o
melhoramento genético do rebanho Parintinense e do Baixo Amazonas.

Parabens ao médico veterinário, Octacílio José Pessoa Ferreira Neto, ao IDAM e a todos os incentivadores do projeto.

quinta-feira, outubro 14

O SEGREDO DA NAZICA

Durante toda a viagem no regatão do compadre Didi, de vez em quando mestre Manduquinha subia no toldo do barco, a modo de molhar os perus, patos e galinhas caipiras que vinham na gaiola da embarcação. De manhã cedo e quando o sol baixava, ele subia prá dar milho pros bicos. Queria que eles chegassem cevados como estavam lá no Aduacá. Os amarrados de mari-mari e os paneiros com piracuí de acari e as caixas com tucumã ficavam em baixo de sua rede no convés do barco Sapucaia. Quando se espichava na rede, imaginava - Ah! Se não fossem os fiscais do Ibama... Tinha trazido uma tartaruga peiada e também umas dúzias de ovos de tracajá. Mas os cuirões tão “marcando cerrado” o embarque desses produtos. Num há ser nada, vou levando uma boa bóia, imaginava Manduquinha, soltando uma baforada da porronca. .
Tá certo, ía incomodar um pouco. Mas ele precisava fazer aquele tratamento médico na capital. E, parente é prá essas coisas, pensava ele. Além de tudo, Nazica não era apenas sobrinha, era também sua afilhada. E a Sinhá lhe falara que na casa da Nazica tinha até um quarto de agasalhar parente que os pávulos da capitar chamam de quarto de hóspede. Disque tem até privada dentro. Só quero ver.
Num há de ser nada, imaginava o caboclo. Além do que, ia matar uma saudade antiga. Desde que Nazica arribou lá das bandas do Aduacá, na antiga zona do contestado entre os estados do Pará e do Amazonas, nunca mais a vira. Se bem que sempre foi convidado pros eventos mais importantes da cunhantã, como a sua colação de grau em Economia e seu casamento. Mas as ocupações com o rebanho e as atividades de comércio nunca permitiram que ele comparecesse. Mas sempre despachava a velha Sinhá e uma das meninas. Quando veio a Belém, certa feita, ele foi passando direto pro Marajó, prá participar de uma exposição gado búfalo. Soube que a Nazica andava, então, pelas Orópias. Num havia de ser nada, um dia iria reencontrar a afilhada. E a oportunidade era agora. E não ia chegar de mãos abanando. Trazia o que de melhor podia oferecer.
O barco atracou de madrugada, num porto da Bernardo Sayão, prá ele sempre Estrada Nova. Olhou e não reconheceu ninguém à sua espera. Já começava a ficar cuíra, quando um homem se dirigiu a ele e perguntou com voz empostada se ele seria o Sr. Manuel Raimundo da Silva Rodrigues.
- Que diacho é isso? Pensou o caboclo. Um “sordado” esperando por mim? Mas, não cortou conversa: - É verdade, doutor, esse nome está na minha identidade, mas só me chamam de Manduquinha, desde que era curumim lá pras bandas do Aminaru.
- O senhor é o tio da Doutora Nazaré Campbell?
- “Cam..” o que? Olhe, eu sou tio e padrinho da Nazica, que nasceu lá no Aduacá. Sinhá falou com ela e ela disse que vinha me apanhá, aqui adonde encostam os barcos que vem daquelas bandas.
- Desculpe, senhor, a Doutora Nazaré esta hora está dormindo. Permita-me apresentar-me. Eu sou Charleston, o motorista da família. Muito prazer. Estou aqui, para ajudá-lo.
Ah! bom, pensou Manduquinha, tô bem arrumado. Enfim, estendeu a mão e - Sastifação, seu..seu... – Pode me chamar de Charles, fica mais fácil, retrucou o motorista, caprichando no chiado da segunda sílaba. – Este cara é viado, pensou Manduquinha. Isso não é nome de macho.
A operação demorou um pouco. Mas finalmente, a mala, os paneiros, os amarrados e as caixas foram colocadas na carroceria da F-2000, cabine dupla.
No caminho, Manduquinha ia imaginando – Égua, parente, a Nazica deve de estar muito bem amparada. Até motorista fardado ela tem. Vá pílula. Tomara que ela não esteja muito pávula, porque abestalhada ela nunca foi.
Manduquinha levou um susto com a casa de Nazica. Uma bela mansão lá pros lados do aeroporto. O caboclo foi instalado num quarto confortável. Foi verter água e ficou espantado com a belezura da privada. Num vazo desse, agente nem tem coragem de obrar, disse pros seus botões. Mas o relaxamento da tensão da chegada na Estrada Nova proporcionou-lhe serviço completo. Ficou mais impressionado, com o cuééé´mmm, que a água fez, quando apertou o botão prá descagar o vaso. O que ele gostou foi da localização do quarto. Ficava longe da sala e dos demais quartos. Pelo menos isso, pensou ele, aqui não incomodo os outros viventes desta casa.
Lá pras onze e meia da manhã, Esmelda, a governanta, que Manduquinha tinha que fazer um esforço enorme prá não chamar de Esmerda, anunciou-lhe que a Doutora Nazaré esperava por ele na sala de estar.
- Olá, tio Manoeeeln! Quanto tieeempo, heeeeein?
- Para com isso Nazica, cadê a benção do padrinho? E pode continuar me chamando de tio Manduquinha ou de dindinho, como tu me chamava no tempo de cunhanmuçu-pisaçu, lá no Aduacá. Respondeu Manduca, espantado com a nasalação e os trejeitos na boca da afilhada.
- Que horrrror, tio. Se um dia eu fui Naziiiiiica, já esqueci. Agora sou Naaazarééé ou Carioooca, como chamam minhas colegas de academia. Saaabe, tio Manoeeel, quando a geeente viaja para o Suuuul e outros lugares do mundo, agennnte vai adquirindo outros modos e sotaaaques. E como estão seus e os demais lá da sua terra?
- Ah bom, Nazaré, tou na tua casa. – Manduquinha mal disfarçou certa decepção com a sobrinha e falou sobre os mimos que trouxera para a família. Nazica, aliás, Doutora Nazaré, sem perder o carioquês artificial, agradeceu e chamou a governanta para, como o apoio de Charleston guardar os presentes do tio Manoel. E, muito solícita, disse-lhe que o motorista ficaria à disposição dele, com a ressalva apenas do horário de sua academia e das suas saídas para o Shopping. As crianças estavam em férias nos Estados Unidos e o marido trabalhava o dia inteiro, deslocando-se em sua BMW, saindo de manhã e voltando somente à noite. Manduquinha, aliás tio Manoel poderia fazer as refeições nos horários que lhe fossem mais convenientes. A conversa terminou com um coooom licieeença.
Manduquinha não gostou nada do que viu e ouviu. Especialmente com o fato da afilhada referir-se à terra onde ela nasceu como se não fosse dela. Na sabedoria do homem simples, Manduquinha podia não conhecer a palavra, mas ele identificava o provincianismo dos deslumbrados com as vivências em outros centros que passam a negar a sua própria terra. Caboclo “passado na casca do alho”, Manduquinha pensou com os seus botões: a vida é essa. A cuirona tá abuiada. Só espero que o tar do marido dela num seja um contrabandista. Quem viu essa perreché, criada a devoluto, correndo pela varanda da casa do finado Tinico e se atirando da cabeça da ponte. Adepois, diziam a más línguas, que ela bateu barro com muito daqueles curumins criados que viviam mergulhando o bodeco. É! Saiu que nem a velha Pupu, tia dela, que na juventude, ah! Meu Deus, fez a felicidade de muita gente. Manduca não pode evitar um sorriso nostálgico, lembrando das festas de antigamente, lá pros lados do Xixiá, Aminaru, Papucu e Curiá. Aquilo que era vida! Muito forró, muita esfregação de virilha.
Ah! bom. Mas estou aqui é prá cuidar desse anuviamento que deu de aparecer nos meus zolho. Vou procurar incomodar o mínimo e vortar lá pras minhas bandas. Agora, uma coisa me deixou cuíra. O que fizeram na venta da Nazica? Num tá normar. Quando ela fala ou sorri, o beiço de cima nem se mexe, fica duro. E as bochechas? Parece dois tomates amarelos.
Nas poucas vezes que tomou café da manhã com a sobrinha e o marido dela, o divertimento interior do caboclo era a fala da Nazica, que ele comparava com uma taquara rachada e as lucubrações que ele fazia quanto ao que fizeram pro rosto de Nazaré ficar daquele jeito. Tanto dinheiro, pensava ele, e a cara já desse jeito. Eu dava uma boiada prá ver essa cara sem essas pinturas todas e esse perfume que enjoa a gente.
Manduquinha gostou muito do marido da afilhada. Sujeito simpático, falante, torcedor do Paissandu, seu time do coração. Era um dotor cerurgião, que trabalhava de sol a sol e gostava de assuntar sobre as coisas do interior. Prometeu até visitar o Aduacá. Se ele cumprir a promessa,vou matar uma rês e fazer uma churrascada prá dotô nenhum botar defeito, mato um porco prá fazer mixira e ensino até ele a pescar.
O caboclo não gostava era do jeito com que um certo doutor Ricardo, amigo da família, olhava prá Nazica. Manduca comparava com o jeito que o pescador olha pro lago onde ele pesca. E ela ficava serena como um pião rodando dentro duma roda riscada no chão. Enfim, pensava o caboclo, aquilo era uma saliência que o marido tinha que cuidar.
Certa manhã, Manduquinha, que estava na sala de estar, atendeu ao telefone. A carioooonca está? Ele já ia dizer que não conhecia, quando lembrou o apelido da Nazica. Caboco ladino, percebeu a ironia da mulher do outro lado da linha, ao se referir à dona da casa como carioca. Passou o telefone e permaneceu no ambiente, concentrado na página de esportes do jornal. Lá pelas tantas, foi impossível manter a concentração. Na conversa com outra dondoca, a sobrinha deu a pista do seu segredo pro tio Manduquinha, que manteve a discrição, enfiando mais ainda, a cara no jornal, soletrando uma reportagem sobre a vitória do Papão contra o clube do Remo. A estridência da música “Hoje a jiripoca vai piar” com que o cantor Leonardo embevecia Carioca, recostada sobre almofadas no sofá da sala, prejudicava a audição de Manduquinha, mas ele percebeu que a conversa girava sobre tratamentos de beleza e cirurgia plástica. Junto com um dos agudos do cantor, manduca ouviu bem a palavra bostox.
Axi porcaria! Exclamou Manduquinha, prá ele mesmo. Então é merda que essa cuirona esfrega na cara dela prá ficar assim. Lisa, dura, esquisita, num treme nem quando leva susto. Agora, só tenho que descobrir que tipo de bosta faz esse efeito. Será titi de galinha? Ou é estrume de novilha coberta? Ah! É por isso que ela só anda perfumada. É um disfarce.
Octavio Pessoa - jornalista, advogado e auditor federal de controle externo.

sexta-feira, setembro 10

POR QUE OS PORQUÊS

Na edição de hoje, dia 10 de setembro de 2010, do Bom dia Brasil, foi inserida uma matéria muito boa sobre o uso dos diversos "porquês". Juntos, separados, com acento sem acento. Rememorei velhas lições do passado, resgatei o trovador adormecido e "saquei" esta que agora, compartilho com vocês:

Quisera eu entender por que
em Português há tantos porquês.
Porque, se não entendo agora,
pela minha vida a fora,
perguntarei sempre: por quê?

segunda-feira, agosto 23

A Ação da Igreja Católica no Mundo Urbano de Hoje

Com a inserção deste texto, homenageio o Padre Benedetti, da Diocese de Campinas, por sua brilhante e contemporânea palestra sobre como deve ser a atuação da Igreja Católica, no mundo urbano em que vivemos

"Neste texto, procuro apresentar as principais idéias apresentadas nas palestras. Elas nem sempre estão ordem em que foram proferidas. Estão organizadas de modo a formar, tanto quanto possível, um conjunto coerente.
Inicialmente, é preciso observar que o mundo urbano, hoje, é considerado pela Igreja, terra de missão. Isso significa que ocorre uma mudança decisiva nas relações entre Igreja e Sociedade. Esta não se guia por valores cristãos, que, cada vez mais, são postos em pé de igualdade com outros, que têm como referencia o gosto e a satisfação pessoais. A religião, como “sistema” de idéias, valores, verdades, critérios e normas de comportamento, cede cada vez mais lugar, a uma religiosidade vaga, fluída, líquida. E as formas dessa religiosidade se manifestar, obedecem a modismos, são quase sempre efêmeros, passageiros.
A situação não é nova. Foi posta em relevo nos anos 60, quando Harvey Cox publicou “A Cidade do Homem” (The secular city, no título original) Ele salientava como valor central da cidade o anonimato, substituindo as formas de familiaridade e controle presentes na comunidade tradicional (pequena cidade, tribo, mundo rural). O anonimato seria um valor que permite às pessoas a possibilidade de escolher seu “modo de vida”, de guiar seu comportamento por convicções e não por imposição de controles sociais. Os controles sociais visavam “preservar” o mundo tal como existia. Abandonar suas formas de vida, seus valores era “o fim do mundo”, isto é, daquele mundo em que se vivia. Com o anonimato da cidade grande, amplia-se o campo de liberdade, ao tempo em que as ofertas “culturais” se ampliam cada vez mais, dando origem ao pluralismo, inclusive o religioso.
Num certo sentido, isso tudo vem de mais longe. Mais precisamente dos anos 40, quando saíram dois livros significativos. Um deles, “ France, pays de mission” , em que o autor, Andre Godin, alertava para a descrença que começava a se generalizar como atitude de vida das pessoas, num país considerado como filho dileto da Igreja Católica. O outro, de Santo Alberto Hurtado, “Es Chile um pais católico?” preocupava-se com o fato de que o catolicismo não levava a compromissos sociais sérios. Ele mesmo deu exemplo de uma presença diferente com obras sociais significativas, mas que não era a norma de agir de todos os cristãos. A vida religiosa reduzia-se a uma prática sem impacto maior na vida da sociedade.
Com isso quero dizer que os problemas vêm de longe e são profundos. A Igreja soube trabalhar com uma sociedade cristã, ou pelo menos com esse ideal e encontra dificuldades para enfrentar uma sociedade pluralista. Uma sociedade “nova”. O documento de Aparecida diz que passamos de uma época de mudanças para uma mudança de época.
Isso significa dizer que não há receitas prontas, normas de ação definidas. Ninguém as tem. O que existem são experiências pastorais e muita busca, muitas perguntas. E muito aprendizado na troca e intercambio dessas mesmas experiências. Em 2002. o Padre Jose Comblin escrevia:
“...Devemos perder a ilusão de que reflexões pastorais podem oferecer soluções aos problemas da cidade. Não temos solução pronta. O que podemos oferecer são pessoas livres, dedicadas, sacrificadas, com espírito de serviço na aplicação das suas capacidades humanas”.
E não deixava de ser severo:
“O clero deve deixar de pensar que tem todas as soluções, O que tem é o Evangelho, mas comunicar o evangelho não é a preocupação dominante da maior parte do clero na atualidade. Talvez seja esse o maior problema da Igreja na cidade”.
Há que se levar a sério essa “provocação” de Comblin. Não se trata de crítica sem fundamento, menos ainda de uma contestação, mas de uma situação real:
- O clero é também atingido, enquanto clero, pela cultura dominante. Isso quer dizer que sua tendência é a adesão a uma cultura que o Evangelho questiona e que, até certo ponto, constitui o núcleo das análises que são feitas sobre a cidade.
Tomemos um fato indicador: ocorreram quase simultaneamente, na Avenida Paulista, principal avenida da cidade de São Paulo, dois eventos já estão oficializados no calendário da capital paulista- a parada do orgulho gay e a Marcha com Jesus. Pois bem. A parada gay reuniu mais ou menos 2 milhões de participantes, gays ou não gays. A Marcha com Jesus reuniu 2 milhões de pessoas, a maioria absoluta formada por jovens, com expectativa de, no próximo ano, reunir 4 milhões. O que se observa é que as concentrações católicas, em termos numéricos, são cada vez mais inexpressivas.
Este fato constitui uma amostra muito simples de uma mudança social profunda. Exorcizar, demonizar a parada gay? Defendê-la ? Coisa do demônio, da corrupção, da imoralidade? Que ganha a pastoral com isso ? Mais significativa ainda a Marcha com Jesus pelo seu aspecto religioso. Uma união dos evangélicos para mostrar sua força social crescente e, por que não, apontar caminhos diferentes para a convivência social.
Uma condenação (ou aprovação pública e oficial) não leva a lugar algum. No primeiro caso há uma “amostra” de intolerância e discriminação, num mundo que se governa por critérios antropocêntricos e não mais religiosos. No segundo caso – aplaudir – significa perder autoridade: seguir a onda... Imitar o mundo ao invés de questioná-lo.
Esse é mais que um desafio. Constitui, na realidade, um dilema. Existe sempre a tentação de se voltar ou de se sonhar com uma volta ao passado. De se reproduzir modelos antigos, buscando uma instituição forte, capaz de usar o bastão em vez da misericórdia. Essa é uma atitude de condenação em vez de se procurar compreender e propor ideais novos com base no evangelho.
Bento XVI pode-se interpretar, propõe que a Igreja estude e compreenda a realidade do mundo atual e, diante dela, aja em função de ideais baseados no Evangelho. Ele quer qualidade e não quantidade. João XXIII, no discurso de abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, no início dos anos sessenta do século passado, proclamava que se olhasse a história, mestra da vida, e se aprendesse com ela, ao invés de se apresentar como “profeta da desgraça” que só vê na história do mundo, ameaças à Igreja.
É necessário que o cristão católico tome consciência de que há uma situação radicalmente nova, com forte presença de marcas do passado ou que reconduz a certas realidades passadas. Essa situação é complexa demais para caber em normas, receitas, fórmulas feitas. Ela supõe um modo novo de estar presente no mundo, um modo urbano, uma linguagem urbana.
Sintetizando: pastoral urbana não é uma pastoral a mais, uma entre as outras, mas um novo modo de agir pastoral, um modo urbano de “fazer” as pastorais.

MUDANÇA DE ÉPOCA
O uso de expressões como pós-modernidade, fim da história, fim da cidade tornam-se cada vez mais freqüentes. Com relação à cidade, isso quer dizer que ela aparece e desaparece conforme o processo econômico, político, social e cultural se desenvolve. Para construir uma usina hidrelétrica destroem-se cidades, constroem cidades-canteiro de obras e estas também desaparecem. Fim da cidade quer dizer que ela deixa de ser um lugar identificado e identificador, que dá aos habitantes uma experiência de onde estão e do que são na sociedade. Hoje, o lugar cede espaço aos fluxos que movimentam o mundo globalizado.
A cidade e sua forma- centro e bairros, eram definidos menos pela designação oficial e muito mais pelo modo como as pessoas sentiam o lugar- uma profissão, um edifício comercial, uma repartição, um clube, um morador. Tudo isso identificava muito mais um lugar do que nomes e números.
Essa é a razão por que há urbanistas que tentam “recuperar” a cidade como lugar de convivência. Eles valorizam ruas, parques, jardins e calçadões. Querem que as ruas sejam lugar de encontro, mais do que caminho de automóveis. Querem pôr fim ao que se chama de urbanismo de segurança: os ricos se fecham em seus condomínios, as casas se tornam fortalezas e para os pobres, constroem prisões. Os guardas e seguranças estão por todos os lados. A cidade se transforma num lugar de medo e violência.
Mas o que é cidade? A visão que contrapõe cidade e mundo rural precisa ser superada. Precisamos vê-la não apenas como espaço físico, com densidade populacional determinada e como sede de um município definido juridicamente. As cidades são as relações. Uma cidade é o conjunto das relações que se constroem sobre este espaço físico. Essas relações definem a configuração e o sentido simbólico e mesmo identificador que as pessoas têm.
A concepção urbanista da segurança gera situações gera situações antagônicas. Muitos têm vergonha de dizer onde moram. Outros ocultam o lugar em que moram por medo de seqüestros e assaltos.Quem mora no bairro nobre tem uma concepção de si como alguém melhor que os outros. O favelado é visto de forma preconceituosa e discriminatória. Numa linguagem suave, seriam pessoas “perigosas”.
O latim, uma língua muito lógica, usa duas palavras para definir aquilo que entendemos por cidade: civitas e urbs. Civitas é a entidade político-cultural. Designa a forma de associação dos habitantes. Santo Agostinho fala da cidade de Deus como um modo de organizar as relações entre as pessoas, não se referia a “lugar” físico. A religião, no caso, configurava essas relações. Mas estas acontecem dentro de um espaço físico, geográfico delimitado, organizado, construído, murado (como na Idade Média, por exemplo). Esta é a urbs.
O crucial, para a pastoral urbana, é a separação entre civitas e urbs. Há um divórcio progressivo entre a cultura cada vez mais globalizada e o espaço ocupado pelos habitantes. O tempo e o espaço físicos pesam cada vez menos no modo como as relações se organizam. A religião ordenava o espaço. Quem não tinha religião ou praticava aquela diferente dos habitantes desse espaço era considerado estranho. Hoje cada um escolhe a religião que quer. O pluralismo é a marca dessa cultura universalizada
A religião deve responder a problemas e ao gosto pessoal. O lugar em que mora – a paróquia – a pessoa escolhe de acordo com sua vontade e/ou necessidade. Não tem escrúpulos de dar o endereço de um parente ou conhecido para cuidar de documentos ligados à parte sacramental-burocrática. Mudam os critérios para julgar as atitudes religiosas. O homem urbano pensa em termos antropológicos. Para ele, o fato da Igreja não ordenar mulheres, não é problema religioso. Ele vê nisso uma discriminação às mulheres. Estas, por sua vez, também são outra mulher. Com o advento dos anticoncepcionais a mulher é “outra”. Tem um controle maior sobre seu corpo, uma concepção diferente de si, de sua liberdade, de seu lugar no mundo. Claro que isso traz problemas, como por exemplo, o cuidado com os filhos.
Entrar no mercado de trabalho pode “resolver” problemas; mas também pode causar problemas. E não romantizemos: muitas mulheres entraram no mercado de trabalho (nos anos 70, por exemplo) devido à queda salarial dos outros membros da família. O arrocho salarial obriga mais pessoas da família a trabalharem. A imprensa veicula notícias sobre as religiões, buscando criar opiniões e, claro, “vender seu peixe”. Mosrtra um papel negativo da religião como fator de divisões, preconceitos, alimentando discriminações. Mas, ao mesmo tempo, cria outras formas de discriminação, a anti-religiosa.
Ainda ficando nos conceitos – aparentemente desnecessários – mas, na realidade, fundamentais para salientar diferenças entre o que é uma compreensão puramente física, espacial-geográfica da cidade e um modo de vê-la como uma cultura, uma forma de comportamento, vivência de novos valores e para mostrar que o crescimento urbano não é um fato neutro, mas um dado que põe a nu as contradições da sociedade cada vez mais urbanizada. Pensemos na Europa, como entender e explicar a violência “espontânea” nos subúrbios de Paris (jovens incendiando carros sem razão aparente e em ondas sucessivas, quase incontroláveis, pelo menos num primeiro momento)? São filhos de imigrantes das ex-colônias francesas. Nascidos na França são legalmente cidadãos franceses, mas são tratados como “pied-noirs” (pés negros); nem portadores da cidadania de seus pais e nem como franceses. São membros incômodos de uma sociedade para a qual eles não são mais necessários. Isso leva a reações como as que vimos recentemente. Explica o medo que a Europa tem do Islamismo, uma religião que constitui a defesa cultural dos imigrantes rejeitados pelos europeus.
Talvez possamos pensar que o controle rígido dos imigrantes ilegais é um problema apenas de europeus e norte-americanos, mas ainda hoje, há uma forte carga de preconceitos com relação aos nordestinos em São Paulo. Ouvimos às vezes pessoas dizerem que são eles “o problema” de São Paulo. Preconceito e discriminação. Difíceis de suportar. Isso faz com que os pais, ao se aposentarem, voltem para a cidade de origem. Os filhos já estão inculturados na cidade e não acompanham os pais.
Os números sobre o crescimento urbano espantam. 13 das maiores aglomerações urbanas se encontram na Ásia, na África e América Latina. Em 2015 serão 33 megalópoles. Dessas, 27 estarão em países menos desenvolvidos. Só Tóquio estará entre as 10 mais desenvolvidas.
Tudo isso tem uma repercussão pastoral imediata. A cidade, do ponto de vista das teorias, seria uma aglomeração que integra, reúne. No entanto, ela se torna cada vez mais um lugar (e fator) de dispersão, fragmentação e multipolarização. Ela se ramifica. De lugar onde as pessoas se encontram, conversam, têm uma identidade assimilada ao lugar onde vivem, ela se transforma em fluxo, movimento, dispersão. Esse fluxo obedece ao capital internacional financeiro que comanda o desenvolvimento urbano, cria as cidades, as faz crescer e pode, no limite, fazê-las desaparecer. O fluxo financeiro dá-se em torno das chamadas “cidades globais” -Toronto, Nova Iorque, Frankfurt, Paris, Londres, São Paulo.

A PASTORAL URBANA NO DOCUMENTO DE APARECIDA
A pastoral urbana, no documento e nos trabalhos publicados sobre o assunto, tem como enfoque central a busca de um modo urbano de fazer pastoral. Assim, não se trata de mais uma pastoral entre as outras (família, batismo, carcerária). Pastoral Urbana supõe sempre a análise da realidade, forme o método ver-julgar e agir.
Para Aparecida, falar da cidade é falar da sociedade em processo de urbanização, Um processo que atinge diretamente a religião. Ela se torna objeto de reclamação no PROCON. Este fato nunca pode ser isolado das mudanças pelas quais passa a religião. Ela se mercantilizou. Pastores e ministros religiosos prometem bens e não conseguem entregá-los. Pior, são bens já pagos.
Sintetizemos o documento (n.o 21):
- coloca a cidade dentro do processo de passagem da agricultura para a indústria;
- a cidade provoca a concentração de população;
- esta concentração produz as megalópoles (cidade-gigantesca);
- os meios de comunicação de massa “levam” a cidade para os meios rurais.
“A grande cidade moderna favorece o contato com uma pluralidade de experiências e de expressões culturais, multiplicando as possibilidades de escolha do individuo. Este tende a construir a seu gosto a sua própria identidade. Esta não goza da estabilidade e nitidez das identidades do passado. Carece de solidariedade e do controle próprios de comunidades menores. A aceleração das mudanças contribui também para deixar as pessoas estressadas ou desnorteadas. Aqui vemos palavras-chave:
- Pluralidade – pluralismo como valor fundante;
- Possibilidades de escolha por parte do individuo;
- Gosto como critério de construção da identidade;
- Fluidez, liquidez, efemeridade da identidade ( flutuação da identidade);
- Falta de solidariedade e
- controle das comunidades menores.
Essas características estão ligadas à cultura. Na simples enumeração já percebemos o quanto a religião está implicada e como estamos despreparados para lidar com um individuo livre e, ao mesmo tempo, cada vez mais controlado. Essa a contradição: em nome da liberdade pessoal são impostas escolhas, formas de vida e são cada vez mais sofisticadas os meios técnicos de controle da vida pessoal e social.
Ao falar de mudanças (econômicas, políticas e culturais), o Documento de Aparecida coloca como nível mais profundo o cultural. É nesse nível, que se coloca a ação da Igreja. E ai temos:
- Sobrevalorização da subjetividade individual. Nesta, há uma valorização da liberdade e da dignidade da pessoa;
- Transformação radical do tempo e do espaço. Importa viver o aqui e o agora. Há que ser feliz já. A busca da felicidade se impõe como obrigação, quase um peso a mais. Vivo em todos os lugares ao mesmo tempo. Estou conectado. Posso adotar nomes e situações fictícios. O “outro” entra no meu mundo se me interessa. Vive-se o presenteísmo. Maffesoli fala do “instante eterno”. Eu no aqui e no agora como única realidade. Não tem sentido sacrificar a vida por grandes causas, por ideologia, por ideais futuros. Tende-se a esquecer o passado. Tendência também à mobilidade e ao desenraizamento.
- Individualismo: Auto-referência do indivíduo. Indiferença ao coletivo. Não me sinto responsável pelo outro. As relações afetivas não implicam em compromisso. Os verbos utilizados pela juventude= flutuar, zapear, ficar= são muito expressivos dessa situação.
- Passagem do ético ao estético. O bom, o verdadeiro, o certo estão naquilo que me agrada e não estão ligados a valores eternos, transcendentes. Não posso adiar a satisfação dos meus desejos para um futuro que não domino. Dessa forma, a sociedade não tem futuro. Ela se reduz ao mundo das necessidades imediatas.
- Identidade: Palavra chave. Há três questões que a pessoa humana existencialmente responde: quem sou eu? Para onde vou? O que devo fazer?
A religião respondia a essas questões. Ela colocava a pessoa humana no conjunto de suas relações dentro de um universo significativo, de um mundo dotado de sentido. Respondia às inquietações. Fornecia normas para a conduta. Dentro do mistério da vida pessoal e social dava respostas para a pessoa se situar. Agora, no mundo urbano, a identidade se funda no consumo. É nesse sentido que se deve entender a palavra consumismo: é “buscar o que se é naquilo que se consome”.
A religião se torna questão de escolha pessoal, subjetiva. Sinto-me livre para buscar dentro de mim as respostas que preciso para viver. Seleciono e misturo crenças e práticas.
A religião se situa menos como um sentido da História, do mundo pessoal e social e muito mais como resposta situada a problemas situados. Busca-se cura para todo tipo de males. As religiões se multiplicam oferecendo remédio para males econômicos, emocionais, físicos e espirituais. Como reação a isso há a busca de verdades eternas, imutáveis. O mundo é lido com os olhos das palavras da Bíblia (como exemplo); elas não são interpretadas mas tomadas ao pé da letra: “As coisas são asssim porque foram feitas assim por Deus e assim tem que continuar”. Com isso perde-se a ligação entre a Palavra de Deu s e a História, o mundo pessoal e social.

DESAFIOS
O documento de Aparecida põe como desafio realizar a cidade santa pelo caminho da proclamação e vivência da Palavra de Deus. Ela deve ser proclamada, celebrada na liturgia e vivida na comunhão fraterna e no serviço. Este voltado, de modo especial, para os mais pobres.
Pede que se transforme a cidade em fermento do Reino de Deus. Claro, isso é mais um horizonte de ação, uma idealização utópica, mas que tem que se tornar uma meta permanente de ação pastoral. A realidade local – estado, diocese, paróquia – são o campo para se concretizar esse grande ideal, a construção do Reino de Deus. Por isso, buscar entender a realidade onde estamos como Igreja é o primeiro e indispensável gesto de ação pastoral. Ver a realidade, pensar concretamente como responder, aqui e agora, aos problemas de fundo: - ir além da paróquia, o que supõe procurar formas novas de exercício do ministério; fazer nascer comunidades vivas, novas.
O número 517 do Documento de Aparecida traz como pistas/desafios ou desafios/pistas alguns pontos chave:
a) responder à complexificação crescente das relações entre as classes sociais;
b) buscar novas experiências, estilos e linguagens encarnadas na realidade;
c) uma espiritualidade que tenha marcas relacionais, não apenas intimistas do tipo “eu só e Deus”;
d) transformar as paróquias em comunidade de comunidades;
e) buscar criar comunidades ambientais, ligadas, sobretudo a profissões, cujo exercício é cada vez mais complicado do ponto de vista ético-moral (medicina e direito, por exemplo). Isso supõe pessoas qualificadas pra haver um encontro entre o que exige a fé e o que o profissional sabe e faz. Como falar de Deus a um biólogo se eu não entendo nada de biologia?
g) integração de todos os níveis de expressão da fé. O texto não explica claramente, mas dá a entender que a liturgia e a vida familiar, profissional, a participação na vida da sociedade (política) devem estar integradas;

h) FORMAÇÃO: a meu ver, o item principal- Primeiramente, há uma procura cada vez maior por formação. Em segundo lugar, as respostas prontas não dizem nada para quem busca seriamente viver os desafios da fé. Em terceiro lugar, o mundo urbano é plural. Há disputas e opiniões de todo tipo. A questão se torna ainda mais difícil quando se trata de atingir o mundo dos jovens. Não basta opinar. É preciso ter o que falar.
- Acolhida: Deve ser a atitude da Igreja. Acolher os que chegam à cidade. Buscar os que estão longe da Igreja. Visitar as casas (cuidado, o homem urbano não é muito de abrir sua casa ao proselitismo religioso). O documento se refere às dificuldades de penetrar em condomínios de luxo, nas comunidades dos morros (favelas). No caso, é preciso atuar pastoralmente a partir de pessoas que já moram nesses lugares.
- Cuidado com os caidos à beira do caminho: prisões, hospitais, dependentes químicos, moradores de ocupações exigem um cuidado pastoral privilegiado. Priorizar o atendimento ao sofrimento humano!!!
- Integração: O plano de pastoral é visto como um meio de integrar as várias pastorais. A própria paróquia enquanto território delimitado canonicamente deve integrar no seu trabalho as comunidades de vida religiosa e os movimentos. As dioceses que têm proximidade geográfica devem buscar integração entre si. Para integração maior é necessário dividir a paróquia por setores menores, integrados por uma pastoral comum.
E´ preciso descentralizar os serviços eclesiais.

Para concluir, há muita coisa que foi comentada nas palestras e que está implícita no que está escrito aqui. Deve-se levar em conta que cada realidade tem aspectos próprios e que nem tudo o que foi escrito e conversado nas palestras acontece da mesma forma em todos os lugares. Daí que seja necessária uma boa discussão (em grupos, por exemplo) do conteúdo aqui resumido."

Padre Luiz Roberto Benedetti