segunda-feira, agosto 23

A Ação da Igreja Católica no Mundo Urbano de Hoje

Com a inserção deste texto, homenageio o Padre Benedetti, da Diocese de Campinas, por sua brilhante e contemporânea palestra sobre como deve ser a atuação da Igreja Católica, no mundo urbano em que vivemos

"Neste texto, procuro apresentar as principais idéias apresentadas nas palestras. Elas nem sempre estão ordem em que foram proferidas. Estão organizadas de modo a formar, tanto quanto possível, um conjunto coerente.
Inicialmente, é preciso observar que o mundo urbano, hoje, é considerado pela Igreja, terra de missão. Isso significa que ocorre uma mudança decisiva nas relações entre Igreja e Sociedade. Esta não se guia por valores cristãos, que, cada vez mais, são postos em pé de igualdade com outros, que têm como referencia o gosto e a satisfação pessoais. A religião, como “sistema” de idéias, valores, verdades, critérios e normas de comportamento, cede cada vez mais lugar, a uma religiosidade vaga, fluída, líquida. E as formas dessa religiosidade se manifestar, obedecem a modismos, são quase sempre efêmeros, passageiros.
A situação não é nova. Foi posta em relevo nos anos 60, quando Harvey Cox publicou “A Cidade do Homem” (The secular city, no título original) Ele salientava como valor central da cidade o anonimato, substituindo as formas de familiaridade e controle presentes na comunidade tradicional (pequena cidade, tribo, mundo rural). O anonimato seria um valor que permite às pessoas a possibilidade de escolher seu “modo de vida”, de guiar seu comportamento por convicções e não por imposição de controles sociais. Os controles sociais visavam “preservar” o mundo tal como existia. Abandonar suas formas de vida, seus valores era “o fim do mundo”, isto é, daquele mundo em que se vivia. Com o anonimato da cidade grande, amplia-se o campo de liberdade, ao tempo em que as ofertas “culturais” se ampliam cada vez mais, dando origem ao pluralismo, inclusive o religioso.
Num certo sentido, isso tudo vem de mais longe. Mais precisamente dos anos 40, quando saíram dois livros significativos. Um deles, “ France, pays de mission” , em que o autor, Andre Godin, alertava para a descrença que começava a se generalizar como atitude de vida das pessoas, num país considerado como filho dileto da Igreja Católica. O outro, de Santo Alberto Hurtado, “Es Chile um pais católico?” preocupava-se com o fato de que o catolicismo não levava a compromissos sociais sérios. Ele mesmo deu exemplo de uma presença diferente com obras sociais significativas, mas que não era a norma de agir de todos os cristãos. A vida religiosa reduzia-se a uma prática sem impacto maior na vida da sociedade.
Com isso quero dizer que os problemas vêm de longe e são profundos. A Igreja soube trabalhar com uma sociedade cristã, ou pelo menos com esse ideal e encontra dificuldades para enfrentar uma sociedade pluralista. Uma sociedade “nova”. O documento de Aparecida diz que passamos de uma época de mudanças para uma mudança de época.
Isso significa dizer que não há receitas prontas, normas de ação definidas. Ninguém as tem. O que existem são experiências pastorais e muita busca, muitas perguntas. E muito aprendizado na troca e intercambio dessas mesmas experiências. Em 2002. o Padre Jose Comblin escrevia:
“...Devemos perder a ilusão de que reflexões pastorais podem oferecer soluções aos problemas da cidade. Não temos solução pronta. O que podemos oferecer são pessoas livres, dedicadas, sacrificadas, com espírito de serviço na aplicação das suas capacidades humanas”.
E não deixava de ser severo:
“O clero deve deixar de pensar que tem todas as soluções, O que tem é o Evangelho, mas comunicar o evangelho não é a preocupação dominante da maior parte do clero na atualidade. Talvez seja esse o maior problema da Igreja na cidade”.
Há que se levar a sério essa “provocação” de Comblin. Não se trata de crítica sem fundamento, menos ainda de uma contestação, mas de uma situação real:
- O clero é também atingido, enquanto clero, pela cultura dominante. Isso quer dizer que sua tendência é a adesão a uma cultura que o Evangelho questiona e que, até certo ponto, constitui o núcleo das análises que são feitas sobre a cidade.
Tomemos um fato indicador: ocorreram quase simultaneamente, na Avenida Paulista, principal avenida da cidade de São Paulo, dois eventos já estão oficializados no calendário da capital paulista- a parada do orgulho gay e a Marcha com Jesus. Pois bem. A parada gay reuniu mais ou menos 2 milhões de participantes, gays ou não gays. A Marcha com Jesus reuniu 2 milhões de pessoas, a maioria absoluta formada por jovens, com expectativa de, no próximo ano, reunir 4 milhões. O que se observa é que as concentrações católicas, em termos numéricos, são cada vez mais inexpressivas.
Este fato constitui uma amostra muito simples de uma mudança social profunda. Exorcizar, demonizar a parada gay? Defendê-la ? Coisa do demônio, da corrupção, da imoralidade? Que ganha a pastoral com isso ? Mais significativa ainda a Marcha com Jesus pelo seu aspecto religioso. Uma união dos evangélicos para mostrar sua força social crescente e, por que não, apontar caminhos diferentes para a convivência social.
Uma condenação (ou aprovação pública e oficial) não leva a lugar algum. No primeiro caso há uma “amostra” de intolerância e discriminação, num mundo que se governa por critérios antropocêntricos e não mais religiosos. No segundo caso – aplaudir – significa perder autoridade: seguir a onda... Imitar o mundo ao invés de questioná-lo.
Esse é mais que um desafio. Constitui, na realidade, um dilema. Existe sempre a tentação de se voltar ou de se sonhar com uma volta ao passado. De se reproduzir modelos antigos, buscando uma instituição forte, capaz de usar o bastão em vez da misericórdia. Essa é uma atitude de condenação em vez de se procurar compreender e propor ideais novos com base no evangelho.
Bento XVI pode-se interpretar, propõe que a Igreja estude e compreenda a realidade do mundo atual e, diante dela, aja em função de ideais baseados no Evangelho. Ele quer qualidade e não quantidade. João XXIII, no discurso de abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, no início dos anos sessenta do século passado, proclamava que se olhasse a história, mestra da vida, e se aprendesse com ela, ao invés de se apresentar como “profeta da desgraça” que só vê na história do mundo, ameaças à Igreja.
É necessário que o cristão católico tome consciência de que há uma situação radicalmente nova, com forte presença de marcas do passado ou que reconduz a certas realidades passadas. Essa situação é complexa demais para caber em normas, receitas, fórmulas feitas. Ela supõe um modo novo de estar presente no mundo, um modo urbano, uma linguagem urbana.
Sintetizando: pastoral urbana não é uma pastoral a mais, uma entre as outras, mas um novo modo de agir pastoral, um modo urbano de “fazer” as pastorais.

MUDANÇA DE ÉPOCA
O uso de expressões como pós-modernidade, fim da história, fim da cidade tornam-se cada vez mais freqüentes. Com relação à cidade, isso quer dizer que ela aparece e desaparece conforme o processo econômico, político, social e cultural se desenvolve. Para construir uma usina hidrelétrica destroem-se cidades, constroem cidades-canteiro de obras e estas também desaparecem. Fim da cidade quer dizer que ela deixa de ser um lugar identificado e identificador, que dá aos habitantes uma experiência de onde estão e do que são na sociedade. Hoje, o lugar cede espaço aos fluxos que movimentam o mundo globalizado.
A cidade e sua forma- centro e bairros, eram definidos menos pela designação oficial e muito mais pelo modo como as pessoas sentiam o lugar- uma profissão, um edifício comercial, uma repartição, um clube, um morador. Tudo isso identificava muito mais um lugar do que nomes e números.
Essa é a razão por que há urbanistas que tentam “recuperar” a cidade como lugar de convivência. Eles valorizam ruas, parques, jardins e calçadões. Querem que as ruas sejam lugar de encontro, mais do que caminho de automóveis. Querem pôr fim ao que se chama de urbanismo de segurança: os ricos se fecham em seus condomínios, as casas se tornam fortalezas e para os pobres, constroem prisões. Os guardas e seguranças estão por todos os lados. A cidade se transforma num lugar de medo e violência.
Mas o que é cidade? A visão que contrapõe cidade e mundo rural precisa ser superada. Precisamos vê-la não apenas como espaço físico, com densidade populacional determinada e como sede de um município definido juridicamente. As cidades são as relações. Uma cidade é o conjunto das relações que se constroem sobre este espaço físico. Essas relações definem a configuração e o sentido simbólico e mesmo identificador que as pessoas têm.
A concepção urbanista da segurança gera situações gera situações antagônicas. Muitos têm vergonha de dizer onde moram. Outros ocultam o lugar em que moram por medo de seqüestros e assaltos.Quem mora no bairro nobre tem uma concepção de si como alguém melhor que os outros. O favelado é visto de forma preconceituosa e discriminatória. Numa linguagem suave, seriam pessoas “perigosas”.
O latim, uma língua muito lógica, usa duas palavras para definir aquilo que entendemos por cidade: civitas e urbs. Civitas é a entidade político-cultural. Designa a forma de associação dos habitantes. Santo Agostinho fala da cidade de Deus como um modo de organizar as relações entre as pessoas, não se referia a “lugar” físico. A religião, no caso, configurava essas relações. Mas estas acontecem dentro de um espaço físico, geográfico delimitado, organizado, construído, murado (como na Idade Média, por exemplo). Esta é a urbs.
O crucial, para a pastoral urbana, é a separação entre civitas e urbs. Há um divórcio progressivo entre a cultura cada vez mais globalizada e o espaço ocupado pelos habitantes. O tempo e o espaço físicos pesam cada vez menos no modo como as relações se organizam. A religião ordenava o espaço. Quem não tinha religião ou praticava aquela diferente dos habitantes desse espaço era considerado estranho. Hoje cada um escolhe a religião que quer. O pluralismo é a marca dessa cultura universalizada
A religião deve responder a problemas e ao gosto pessoal. O lugar em que mora – a paróquia – a pessoa escolhe de acordo com sua vontade e/ou necessidade. Não tem escrúpulos de dar o endereço de um parente ou conhecido para cuidar de documentos ligados à parte sacramental-burocrática. Mudam os critérios para julgar as atitudes religiosas. O homem urbano pensa em termos antropológicos. Para ele, o fato da Igreja não ordenar mulheres, não é problema religioso. Ele vê nisso uma discriminação às mulheres. Estas, por sua vez, também são outra mulher. Com o advento dos anticoncepcionais a mulher é “outra”. Tem um controle maior sobre seu corpo, uma concepção diferente de si, de sua liberdade, de seu lugar no mundo. Claro que isso traz problemas, como por exemplo, o cuidado com os filhos.
Entrar no mercado de trabalho pode “resolver” problemas; mas também pode causar problemas. E não romantizemos: muitas mulheres entraram no mercado de trabalho (nos anos 70, por exemplo) devido à queda salarial dos outros membros da família. O arrocho salarial obriga mais pessoas da família a trabalharem. A imprensa veicula notícias sobre as religiões, buscando criar opiniões e, claro, “vender seu peixe”. Mosrtra um papel negativo da religião como fator de divisões, preconceitos, alimentando discriminações. Mas, ao mesmo tempo, cria outras formas de discriminação, a anti-religiosa.
Ainda ficando nos conceitos – aparentemente desnecessários – mas, na realidade, fundamentais para salientar diferenças entre o que é uma compreensão puramente física, espacial-geográfica da cidade e um modo de vê-la como uma cultura, uma forma de comportamento, vivência de novos valores e para mostrar que o crescimento urbano não é um fato neutro, mas um dado que põe a nu as contradições da sociedade cada vez mais urbanizada. Pensemos na Europa, como entender e explicar a violência “espontânea” nos subúrbios de Paris (jovens incendiando carros sem razão aparente e em ondas sucessivas, quase incontroláveis, pelo menos num primeiro momento)? São filhos de imigrantes das ex-colônias francesas. Nascidos na França são legalmente cidadãos franceses, mas são tratados como “pied-noirs” (pés negros); nem portadores da cidadania de seus pais e nem como franceses. São membros incômodos de uma sociedade para a qual eles não são mais necessários. Isso leva a reações como as que vimos recentemente. Explica o medo que a Europa tem do Islamismo, uma religião que constitui a defesa cultural dos imigrantes rejeitados pelos europeus.
Talvez possamos pensar que o controle rígido dos imigrantes ilegais é um problema apenas de europeus e norte-americanos, mas ainda hoje, há uma forte carga de preconceitos com relação aos nordestinos em São Paulo. Ouvimos às vezes pessoas dizerem que são eles “o problema” de São Paulo. Preconceito e discriminação. Difíceis de suportar. Isso faz com que os pais, ao se aposentarem, voltem para a cidade de origem. Os filhos já estão inculturados na cidade e não acompanham os pais.
Os números sobre o crescimento urbano espantam. 13 das maiores aglomerações urbanas se encontram na Ásia, na África e América Latina. Em 2015 serão 33 megalópoles. Dessas, 27 estarão em países menos desenvolvidos. Só Tóquio estará entre as 10 mais desenvolvidas.
Tudo isso tem uma repercussão pastoral imediata. A cidade, do ponto de vista das teorias, seria uma aglomeração que integra, reúne. No entanto, ela se torna cada vez mais um lugar (e fator) de dispersão, fragmentação e multipolarização. Ela se ramifica. De lugar onde as pessoas se encontram, conversam, têm uma identidade assimilada ao lugar onde vivem, ela se transforma em fluxo, movimento, dispersão. Esse fluxo obedece ao capital internacional financeiro que comanda o desenvolvimento urbano, cria as cidades, as faz crescer e pode, no limite, fazê-las desaparecer. O fluxo financeiro dá-se em torno das chamadas “cidades globais” -Toronto, Nova Iorque, Frankfurt, Paris, Londres, São Paulo.

A PASTORAL URBANA NO DOCUMENTO DE APARECIDA
A pastoral urbana, no documento e nos trabalhos publicados sobre o assunto, tem como enfoque central a busca de um modo urbano de fazer pastoral. Assim, não se trata de mais uma pastoral entre as outras (família, batismo, carcerária). Pastoral Urbana supõe sempre a análise da realidade, forme o método ver-julgar e agir.
Para Aparecida, falar da cidade é falar da sociedade em processo de urbanização, Um processo que atinge diretamente a religião. Ela se torna objeto de reclamação no PROCON. Este fato nunca pode ser isolado das mudanças pelas quais passa a religião. Ela se mercantilizou. Pastores e ministros religiosos prometem bens e não conseguem entregá-los. Pior, são bens já pagos.
Sintetizemos o documento (n.o 21):
- coloca a cidade dentro do processo de passagem da agricultura para a indústria;
- a cidade provoca a concentração de população;
- esta concentração produz as megalópoles (cidade-gigantesca);
- os meios de comunicação de massa “levam” a cidade para os meios rurais.
“A grande cidade moderna favorece o contato com uma pluralidade de experiências e de expressões culturais, multiplicando as possibilidades de escolha do individuo. Este tende a construir a seu gosto a sua própria identidade. Esta não goza da estabilidade e nitidez das identidades do passado. Carece de solidariedade e do controle próprios de comunidades menores. A aceleração das mudanças contribui também para deixar as pessoas estressadas ou desnorteadas. Aqui vemos palavras-chave:
- Pluralidade – pluralismo como valor fundante;
- Possibilidades de escolha por parte do individuo;
- Gosto como critério de construção da identidade;
- Fluidez, liquidez, efemeridade da identidade ( flutuação da identidade);
- Falta de solidariedade e
- controle das comunidades menores.
Essas características estão ligadas à cultura. Na simples enumeração já percebemos o quanto a religião está implicada e como estamos despreparados para lidar com um individuo livre e, ao mesmo tempo, cada vez mais controlado. Essa a contradição: em nome da liberdade pessoal são impostas escolhas, formas de vida e são cada vez mais sofisticadas os meios técnicos de controle da vida pessoal e social.
Ao falar de mudanças (econômicas, políticas e culturais), o Documento de Aparecida coloca como nível mais profundo o cultural. É nesse nível, que se coloca a ação da Igreja. E ai temos:
- Sobrevalorização da subjetividade individual. Nesta, há uma valorização da liberdade e da dignidade da pessoa;
- Transformação radical do tempo e do espaço. Importa viver o aqui e o agora. Há que ser feliz já. A busca da felicidade se impõe como obrigação, quase um peso a mais. Vivo em todos os lugares ao mesmo tempo. Estou conectado. Posso adotar nomes e situações fictícios. O “outro” entra no meu mundo se me interessa. Vive-se o presenteísmo. Maffesoli fala do “instante eterno”. Eu no aqui e no agora como única realidade. Não tem sentido sacrificar a vida por grandes causas, por ideologia, por ideais futuros. Tende-se a esquecer o passado. Tendência também à mobilidade e ao desenraizamento.
- Individualismo: Auto-referência do indivíduo. Indiferença ao coletivo. Não me sinto responsável pelo outro. As relações afetivas não implicam em compromisso. Os verbos utilizados pela juventude= flutuar, zapear, ficar= são muito expressivos dessa situação.
- Passagem do ético ao estético. O bom, o verdadeiro, o certo estão naquilo que me agrada e não estão ligados a valores eternos, transcendentes. Não posso adiar a satisfação dos meus desejos para um futuro que não domino. Dessa forma, a sociedade não tem futuro. Ela se reduz ao mundo das necessidades imediatas.
- Identidade: Palavra chave. Há três questões que a pessoa humana existencialmente responde: quem sou eu? Para onde vou? O que devo fazer?
A religião respondia a essas questões. Ela colocava a pessoa humana no conjunto de suas relações dentro de um universo significativo, de um mundo dotado de sentido. Respondia às inquietações. Fornecia normas para a conduta. Dentro do mistério da vida pessoal e social dava respostas para a pessoa se situar. Agora, no mundo urbano, a identidade se funda no consumo. É nesse sentido que se deve entender a palavra consumismo: é “buscar o que se é naquilo que se consome”.
A religião se torna questão de escolha pessoal, subjetiva. Sinto-me livre para buscar dentro de mim as respostas que preciso para viver. Seleciono e misturo crenças e práticas.
A religião se situa menos como um sentido da História, do mundo pessoal e social e muito mais como resposta situada a problemas situados. Busca-se cura para todo tipo de males. As religiões se multiplicam oferecendo remédio para males econômicos, emocionais, físicos e espirituais. Como reação a isso há a busca de verdades eternas, imutáveis. O mundo é lido com os olhos das palavras da Bíblia (como exemplo); elas não são interpretadas mas tomadas ao pé da letra: “As coisas são asssim porque foram feitas assim por Deus e assim tem que continuar”. Com isso perde-se a ligação entre a Palavra de Deu s e a História, o mundo pessoal e social.

DESAFIOS
O documento de Aparecida põe como desafio realizar a cidade santa pelo caminho da proclamação e vivência da Palavra de Deus. Ela deve ser proclamada, celebrada na liturgia e vivida na comunhão fraterna e no serviço. Este voltado, de modo especial, para os mais pobres.
Pede que se transforme a cidade em fermento do Reino de Deus. Claro, isso é mais um horizonte de ação, uma idealização utópica, mas que tem que se tornar uma meta permanente de ação pastoral. A realidade local – estado, diocese, paróquia – são o campo para se concretizar esse grande ideal, a construção do Reino de Deus. Por isso, buscar entender a realidade onde estamos como Igreja é o primeiro e indispensável gesto de ação pastoral. Ver a realidade, pensar concretamente como responder, aqui e agora, aos problemas de fundo: - ir além da paróquia, o que supõe procurar formas novas de exercício do ministério; fazer nascer comunidades vivas, novas.
O número 517 do Documento de Aparecida traz como pistas/desafios ou desafios/pistas alguns pontos chave:
a) responder à complexificação crescente das relações entre as classes sociais;
b) buscar novas experiências, estilos e linguagens encarnadas na realidade;
c) uma espiritualidade que tenha marcas relacionais, não apenas intimistas do tipo “eu só e Deus”;
d) transformar as paróquias em comunidade de comunidades;
e) buscar criar comunidades ambientais, ligadas, sobretudo a profissões, cujo exercício é cada vez mais complicado do ponto de vista ético-moral (medicina e direito, por exemplo). Isso supõe pessoas qualificadas pra haver um encontro entre o que exige a fé e o que o profissional sabe e faz. Como falar de Deus a um biólogo se eu não entendo nada de biologia?
g) integração de todos os níveis de expressão da fé. O texto não explica claramente, mas dá a entender que a liturgia e a vida familiar, profissional, a participação na vida da sociedade (política) devem estar integradas;

h) FORMAÇÃO: a meu ver, o item principal- Primeiramente, há uma procura cada vez maior por formação. Em segundo lugar, as respostas prontas não dizem nada para quem busca seriamente viver os desafios da fé. Em terceiro lugar, o mundo urbano é plural. Há disputas e opiniões de todo tipo. A questão se torna ainda mais difícil quando se trata de atingir o mundo dos jovens. Não basta opinar. É preciso ter o que falar.
- Acolhida: Deve ser a atitude da Igreja. Acolher os que chegam à cidade. Buscar os que estão longe da Igreja. Visitar as casas (cuidado, o homem urbano não é muito de abrir sua casa ao proselitismo religioso). O documento se refere às dificuldades de penetrar em condomínios de luxo, nas comunidades dos morros (favelas). No caso, é preciso atuar pastoralmente a partir de pessoas que já moram nesses lugares.
- Cuidado com os caidos à beira do caminho: prisões, hospitais, dependentes químicos, moradores de ocupações exigem um cuidado pastoral privilegiado. Priorizar o atendimento ao sofrimento humano!!!
- Integração: O plano de pastoral é visto como um meio de integrar as várias pastorais. A própria paróquia enquanto território delimitado canonicamente deve integrar no seu trabalho as comunidades de vida religiosa e os movimentos. As dioceses que têm proximidade geográfica devem buscar integração entre si. Para integração maior é necessário dividir a paróquia por setores menores, integrados por uma pastoral comum.
E´ preciso descentralizar os serviços eclesiais.

Para concluir, há muita coisa que foi comentada nas palestras e que está implícita no que está escrito aqui. Deve-se levar em conta que cada realidade tem aspectos próprios e que nem tudo o que foi escrito e conversado nas palestras acontece da mesma forma em todos os lugares. Daí que seja necessária uma boa discussão (em grupos, por exemplo) do conteúdo aqui resumido."

Padre Luiz Roberto Benedetti

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