sábado, maio 4

Para quem gosta de escrever e de poesia (ou O Escritor e Seu Instrumento).





          O apego ao instrumento de trabalho é uma tônica entre as pessoas que escrevem. Seja entre os que fazem desse ofício uma atividade profissional e dela sobrevivem, ou entre aqueles que não viveriam em paz se não “colocassem no papel”, o fruto de suas pesquisas e reflexões, de suas angústias, enfim, tudo aquilo que se traduz  nos seus textos. Esse apego do sujeito ao instrumento sobreleva, nos dias de hoje, quando os textos são produzidos nos PC's e notebooks, que estão cada vez mais popularizados e  podem ser levados para todos os lugares.

A impressão que me dá é que a unidade computadora, como dizem nossos irmãos lusitanos, pega até os cacoetes do seu usuário, que pode até escrever num equipamento similar, mas com certeza, sem que sua produção seja igual ao que faria, se estivesse usando sua própria máquina.    Assim, é angustiante quando você, por alguma   razão, fica longe do seu “confidente fiel”, como diz o Toquinho, na sua música “O Caderno”, que, na verdade, era o notebook ou o tablet da criança, na época que a música foi composta.

Recentemente vivi uma situação dessas. Passei  cinco dias sem meu notebook. Na linguagem popular da informática, ele “deu pau”. Graças a Deus, já estou trabalhando nele e parece até que as ideias estão me vindo com mais clareza e fluindo muito melhor.

          Nos dias que estive ausente, aliás, que meu notebook esteve ausente de mim, só não fiquei “fora do mundo” porque o smartphone me proporcionou contato com  os amigos e as facilidades que ele permite. Mas, para escrever, para produzir textos  não é a mesma coisa. Esse tipo de equipamento limita a gente, ou, pelo menos a mim é assim. Provavelmente os usuários de tablets não sintam tanto a diferença. Não sei. Confesso uma fraqueza: tive um tablet e não me acostumei com ele. Pelo menos com aquele que eu tive. Quem sabe, mais adiante, me desafie novamente e seja melhor sucedido.

          Pois bem, quando eu pus “a boca no mundo”, pelo smartphone, anunciando minha angústia por estar sem meu notebook, um fraterno amigo e conterrâneo , mas que é um tremendo gozador, o Gláucio Silva, não perdeu a oportunidade de me “encarnar”. Colocou à minha disposição uma máquina datilográfica Olivetti, em perfeitas condições de uso. Dei o troco à altura. Pedi que ele me enviasse a máquina, por e-mail. Kkkkkkkk.

          Mas a brincadeira do Gláucio não foi de todo, fora de propósito. Apenas, em razão do abençoado avanço tecnológico, a máquina datilográfica soa hoje extemporânea, como peça de museu. Especialmente para as gerações que se alfabetizaram nos computadores. Tanto é assim que, um dia desses, meu sobrinho Enzo Vasconcelos Pereira, diante de uma jurássica máquina datilográfica, não teve dúvida, ao observar espantado, o funcionamento do “monstrengo”: - “Legal esse computador, né pai? Ele não precisa de impressora. Tu bate a letra e ela já sai impressa no papel”. Kkkkkkk. Coisas de criança do século XXI.

Antes dos computadores, as máquinas datilográficas eram, como diz a colunista Rejane Barros “oquiá”. Lembro-me quando chegaram as primeiras máquinas de escrever elétricas de esfera. Um sucesso. Você aferia o nível dos escritórios, em função da presença ou não de máquina datilográfica elétrica. Especialmente se ela tivesse “apagamento automático”, o que aposentou as fitas corretivas de erros.



Às máquinas datilográficas, muito mais se apegavam seus usuários. Era um relacionamento quase marital. Possivelmente, antes delas, esse vínculo deveria acontecer em relação às penas e às canetas tinteiros.





Guisepp Ghiaroni imortalizou o vínculo do escritor com sua máquina datilográfica, neste poema, que eu compartilho agora, com você:




MÁQUINA DE ESCREVER

- Giuseppe Ghiaroni

Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval.

Vende esse rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.

Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende, além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.

Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.

Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.

Mas poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas, tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!

Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.

Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.

Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas teclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.

Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.

Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar.

          Guiseppe Artidoro Ghiaroni, nasceu em 22 de fevereiro de 1919, em Paraíba do Sul, Minas Gerais. Foi poeta  e jornalista,  imortalizou-se no Rio de Janeiro, na época áurea do Rádio, em que seus poemas, lidos ao microfone pelos locutores da Rádio Nacional, eram sucesso em todo o país. Suas atividades jornalísticas começaram no jorrnal A Noite. Ghiarone sempre desenvolveu intensa atividade, sendo a  última delas, na produção da Escolinha do Professor Raimundo, da Rede Globo. Faleceu em 21 de fevereiro de 2008.

          Lembro-me de um disco de vinil compacto com 4 faixas, que continham 4 poemas de Ghiaroni, “O Dia das Mães”, “O Dia dos Pais”, “Presente de Natal Para um Órfão de Guerra” e “O Aniversário do Meu Amor”, que havia na minha casa, na minha adolescência. Eu não cansava de ouvir e ouvir, na eletrola de  casa, chegando até a decorar algumas delas. Acho que vem daí meu fascínio por Poesia e sua interpretação. E também, meu interesse pelo Rádio, meu primeiro emprego, como locutor.


          Hoje, nossos textos são feitos nos computadores, sendo mais comuns os notebboks. Esse instrumento de trabalho de quem escreve, também já foi cultuado poeticamente por Raimundo Gadelha, no seu poema





“Desconhecidas Sendas”
No computador
vejo um móvel quase pensante
E, neste instante, sou um ser perplexo
mergulhado na busca de um desconhecido nexo
Olho minuciosamente o monitor
como que nele querendo entrar, tocando na tecla
(uma única que fosse) de um espírito possível
Mas, chumbado, ele se mantém impassível
Tento, então, fantasiar o caminho de suas ideias
por chips, placas megabytes
E piegas que sou, fico a romancear,
contemplando esta misteriosa estrada
de onde bifurcam lógica e emoção
Mas quem garante quem é o que?
Neste exato aparente momento sou emoção digitadora
O computador é tão só a captação do que tento ser
Mas quem e o quanto de emoção sentia quando criava?
Tudo é paraíso e inferno únicos
Programado e programável, tudo reside na essência
Um chip, um disquete, uma alucinação qualquer resgatável
E de tudo, aquela sensação que programa nenhum decodifica
De onde  advém esta simultânea certeza de força e insegurança?
A verdade é que no meio de tanta informática, falta explicação
E não falo de Deus ou da origem do Universo,
falo sim dos links do interior com este mundo externo
Se opero o programa é porque programado fui
Se não faço o que sempre quis, programado fui
Sendo assim, vou conjugando verbos galaxiais
que não entendo, mas com os quais tenho certa intimidade
E penso se a preposição não seria um fragmento da alma
que, além da ação, busca conexão com os fatos...
Abaixo todas as guardas e sou receptivo por inteiro
Um Deus que ainda desconheço
Os bruxos
O computador
Os duendes
Os trancosos
Que tudo se chegue e (mesmo sem entendimento) se harmonize.

          Esse poema é inserido no livro “Pra não esqueceres dos seres que somos”, editado em 1998, que contém um CD encartado, com os poemas, todos de Gadelha. Hoje, uma das preciosidades de minha biblioteca.

          Raimundo Gadelha, é formado em Publicidade e Jornalismo pela Universidade Federal do Pará, com especialização na Universidade de Sophia, em Tóquio, Japão, onde viveu durante três anos, depois de ter estudado em Nova York. Poeta e fotógrafo, sua obra percorre o romance e a poesia, geralmente associada à fotografia. Trabalhou durante três anos como editor da Aliança Cultural Brasil-Japão e, em 1994, fundou a Escrituras Editora.  (Fonte:http://www2.bienaldolivro.ce.gov.br/). 

          

        É isso aí, caro leitor. Quem escreve, não sem razão, desenvolve um vínculo profundo com o instrumento que utiliza para produzir. E seduzir.

11 comentários:

  1. Gostei do seu blog, Otávio. Muito bacana. Parabéns!

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    1. Obrigado, padre José Carlos e até minha próxima viagem ao Rio. Um abraço.

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  2. Mau colega de lutas e sonhos literários seu blog é paid'égua!

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    1. Muito obrigado. Este espaço é seu também. Um abraço.

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  3. Sua criatividade encanta. Na crise, crie e vc superou mais uma adversidade com maestria.

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    1. Você é suspeita pra falar de mim. Beijos.

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  4. Perfeito! Totalmente esculpido de ti.

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    1. Obrigado pelo seu comentário. Concordo plenamente com ele.

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  5. Um texto que estampa sua marca.

    Rebuscado.

    Pesquisado ao extremo.

    De você, Octavio, espero toda intelectualização possível.

    Um abraço.

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  6. Querido Octavio,

    belíssimo texto. Ternura e trabalho, algo preciso e preciso para sondar o fascinante universo da linguagem, ouvir mundos, acordar e dormir com a esfinge da palavra, não decifrá-la e ter o prazer de ser devorado por ela.

    Abraços,
    Daniel Leite

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    1. Sua observação, considerando seus méritos literários, me fazem sentir que estou no rumo certo. Um abraço meu irmão Daniel.

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