sábado, outubro 26

E POR FALAR EM POESIA…


        ... retorno, após prolongada ausência deste espaço pra falar de Poetas e Músicos, de Círio de Nazaré, de casamento no Centenário de Vinícius de Moraes e de uma Volta Literária, com muita, muita Poesia.

100 MIL POETAS & MÚSICOS POR MUDANÇAS/2013


          Primeiro, o 100 MIL POETAS & MÚSICOS POR MUDANÇAS, Evento da Amazônia/2013. Com produção mais caprichada, este ano a equipe organizadora- Benny Franklin, Hudson Andrade, Rosenaldo Sanches, Alfredo Garcia e Octavio Pessoa, prevendo a chuva que no ano passado prejudicou  o espetáculo, providenciou um toldo para o palco. Para nossa felicidade, este ano a chuva caiu antes de começar o evento conduzido pelo Hudson Andrade e por mim,  numa noite estrelada e de muita poesia. Tivemos também na produção, como diz o cantor e compositor Luiz Melodia “o auxílio luxuoso” de Paulinho Assunção, Álvaro Drago e Mauro Lima Pontes. E mais uma vez contamos com a produção gráfica de Rui Bastos. Nossa intenção para o próximo ano, é cobrir toda a área do Anfiteatro São Pedro Nolasco, da Estação das Docas, protegendo inclusive o público, ante a possibilidade de chuva no nosso inverno amazônico, na data de realização do evento em todo o mundo, o último sábado do mês de setembro.

          A semântica POR UM RIO DE PAZ NA CIDADE DAS ÁGUAS, idealizada pelo poeta e escritor  Daniel da Rocha Leite, foi explicada neste poema  do próprio Daniel, que foi por mim interpretado:  

                                                         Desarmar o olho
                                                       desarmar a palavra
                                                      e o silêncio que fere.

Amar o outro, uma pessoa,
        outra pessoa
       simples pessoa,
um mundo todo feito de gente.

       Desarmar o olhar
                                                  desarmar a alma
        amar o estranho
                                                  todavia estranho
      toda(vida) uma vida
      outra vida,
                                       não mais uma multidão sozinha.

    Desarmar a palavra
     e o silêncio que fere.
     Semear novos mundos
    Semear outras novas vidas.
   
     Poeta um só, cem mil,
           pelo poema
        dentro do poema
        uma paz possível.
       Música, verso e vida
              pra gente
                                                     para o agora
                                                para os nossos filhos.

                                            Uma cidade que queremos
     uma terra de poesia
     um outro nosso chão.
                                        Uma outra memória do futuro.
                                          Uma cidade, um mundo.
                                     Um rio que anda dentro de um mar.



          Na sequência, o filósofo, poeta e escritor Antonio Juraci Siqueira declamou o poema de sua autoria que abriu o evento.

                                     POR UM RIO DE PAZ NA CIDADE DAS ÁGUAS
1
Belém, “Cidade das Águas”,
palco de amor e de fé,
berço de um povo guerreiro
que por nada arreda o pé
e em cujo peito cabano
desabrocha todo ano
o Lírio de Nazaré!

2
“Cem Mil Poetas & Músicos
Por Mudanças” mundiais
semeiam grãos de esperança
nos corações dos mortais.
Nós, poetas destas ribeiras,
içamos nossas bandeiras
é  “Por Um Rio de Paz”!

3
Unidos pela poesia,
em prol da vida cantamos
e neste palco de sonhos
justa homenagem prestamos
a Carlos Corrêa Santos
em cujo nome outros tantos
artistas também saudamos!

4
Nesta edição dedicada
ao mestre Walcyr Monteiro,
saudamos todos os mestres
do Brasil e do  estrangeiro
para que, lutando unidos,
seus brados sejam ouvidos
nas terras do mundo inteiro!

5
Cá estamos! Sonhadores
sem olhar credo nem cor.
Almas prenhes de ternura
e alheios à própria dor,
do coração da Amazônia
cantando, sem parcimônia,
por justiça, paz e amor!
6
Tudo o que juntos sonhamos
se transforma em grão fecundo.
Portanto, armados de afetos,
vestidos de amor profundo,
lancemos grãos de esperança,
de concórdia e de bonança
pelos canteiros do mundo!

7
Que não exista entre nós,
disputas, desunião,
pois a paz brota e viceja
onde há partilha de pão.
Teatrólogos, contistas,
poetas e romancistas
são dedos da mesma mão.

8
Cá da Cidade das Águas,
desta Amazônia louçã,
irmanados pelo sonho
seguimos em nosso afã
e por um rio de paz
nesta jornada tenaz
buscamos novo amanhã.

9
Prometeus de um tempo novo,
nós trazemos a alegria
na pira ardente do verbo
convertida em poesia:
fogo maior que unifica,
que transforma, purifica
e a dor do mundo alivia.

10
Mas se a fogueira do sonho
morrer ao nosso redor,
tornemos cinza em semente,
plantemos sonho maior!
Que a chama rubra da ação
brote em cada coração
em prol de um mundo melhor!

          Trinta poetas, homens e mulheres, intercalados por números musicais se sucederam no palco e brindaram o público que lotou o Anfiteatro São Pedro Nolasco, da Estação das Docas, com muita poesia. 

No centro, Carlos Correia Santos

          Momento especial da programação do 100 MIL POETAS & MÚSICOS POR MUDANÇAS, EVENTO DA AMAZÔNIA/2013 foi a homenagem ao poesta, escritor, dramaturgo, músico, Carlos Correia Santos, pelo conjunto de sua obra. Texto da obra do homenageado foi lido por de Hudson Andrade. Carlos,   que aniversariava naquele 28 de setembro, foi ovacionado pelo público, após o Parabéns a Você. Na sequência da homenagem, houve apresentação do VersiVox, peça líteromusical, de autoria do dramaturgo.

          No final, o conjunto do programa foi dedicado ao poeta, escritor e pesquisador da Cultura Amazônica, Walcyr Monteiro, que recebeu uma placa em que ficou consignado o reconhecimento dos poetas, escritores e músicos da Amazônia pelo seu trabalho de pesquisador.      



       Para o público que lotou o São Pedro Nolasco, eventos dessa natureza devem ser realizados mais vezes e noutros espaços. O 100 MIL POETAS & MÚSICOS POR MUDANÇAS já está inserido na programação anual da Estação das Docas e no catálogo cultural de Belém e da Amazônia.  




         
Virado o mês de setembro, o Círio de Nazaré que mobiliza todos os paraenses nativos ou por adoção, também me mobilizou, na condição de papachibé adotado  que vive intensamente todas as emoções do Círio de Nazaré. Como em todos os anos, após a missa e a saída da Berlinda da Igreja da Sé, “voamos” pra casa, pra concluir as providências e aguardar os parentes e amigos, para o almoço do Círio. Muita alegria e congraçamento e, pra variar, poesias, como esta do mano  Juraci Siqueira:

Barqueiros de Amor e Fé
I
Senhora do Amor Eterno,
em Vossa barca de flores,
volvei-nos o olhar materno,
rogai por nós, pescadores,
nas lutas do dia a dia
pelo pão da poesia
num mar de risos e dores.
II
Nesse rio de romeiros
nossa fé em Vós revoa;
somos todos canoeiros
a remar, com Deus à proa,
nessa igarité tão linda
que o povo chama Berlinda
e vos serve de canoa.
III
Pelas marolas da vida,
envoltos em nossos ais,
em Vós buscamos guarida
aportando em Vosso cais
- porto seguro e divino -
para atar nosso destino
no esteio de Vossa Paz.
IV
Seguimos nossos caminhos,
Senhora de Nazaré,
nós, humildes ribeirinhos
remando contra a maré
rio abaixo, rio acima
na barca que nos anima
onde embarca a nossa fé.
V
Nas rabetas, nas bajaras,
nos cascos, nas montarias,
nos batelões, nas igaras,
vencendo marés bravias
descem cargas de bonança
trazendo amor e esperança
em eternas romarias.
VI
Guiai os nossos barqueiros
com suas cargas de sonhos,
nossos produtos brejeiros,
de artesãos belos, risonhos
e os livrai das emboscadas,
das abordagens tramadas
por malfeitores medonhos.
VII
Virgem Mãe dos construtores
das nossas embarcações,
aliviai suas dores
dai paz em seus corações
para que sem sacrifícios
possam passar seus ofícios
às futuras gerações.
VIII
Ó, Virgem Santa, coloque
Vosso manto sobre nós
pondo em cada roque-roque
a voz dos nossos avós
junto aos sons da Natureza
emprenhando de beleza
este mundo grave e atroz.
IX
Eliminai nossos medos
nos dando um novo sentido,
nos fazei vossos brinquedos
de miriti colorido.
Livrai o meio ambiente
desse monstro poluente
que é o Capital atrevido.
X
E ao final desta jornada,
em prol do Supremo Bem,
Santa Mãe Imaculada,
olhai por nossa Belém!
Abençoai vossos filhos
direcionando seus trilhos
para todo o sempre. Amém!


Camilo, Cassie e Alex Centeno, Luciana, Octavio e Ana Celeste

          Passado o Círio, um momento ímpar mobilizou a mim, minha esposa Ana Celeste e toda  a família. O casamento de nossa filha Luciana com o advogado Alex Centeno. Luciana é nossa única filha. Além dela, temos também um único filho, o Rodrigo Octavio. 



Luciana e Rodrigo Octavio
A experiência do casamento de uma filha é indescritível e inesquecível. A gente gera, cria, educa e quer o melhor pros nossos filhos. Ana Celeste, eu, os familiares e amigos, compartilhamos nossa felicidade com os familiares do Alex e os nossos convidados. Em minha fala, na recepção, ressaltei a feliz escolha da Luciana e do Alex, quanto à data do casamento, 19 de outubro que, como falei, pode ser considerado O DIA DO AMOR, pois nele nasceu Vinícius de Morais, o poeta que mais falou e cantou o Amor, e que este ano faria 100 anos.

                        

             Retornando ao 1OO MIL POETAS & MÚSICOS POR MUDANÇAS, na  organização de um evento dessa natureza, a gente interage com muitas pessoas, às vezes só por telefone. É o caso de uma pessoa que ainda não conheço pessoalmente, mas que teve um papel importantíssimo na divulgação do nosso evento, a jornalista Ylen Brito, que trabalha na Assessoria de  Imprensa, da Organização Social Pará 2000, entidade mantenedora da Estação das Docas. Pois bem, após a realização do evento, num telefonema, ela revelou também ser “ do ramo”. Enviou-me este poema de sua autoria, com que encerro esta matéria, convidando-a para estar no palco conosco, no próximo ano:

VOLTA LITERÁRIA

Vírgula, ponto.
Deram-se as mãos, seguiram em frente.
Depararam-se com um longo caminho de palavras de repente.
Repentinamente, correram.
Rumo ao fim, ao início do fim.
Juntaram-se.
Sim.

Ponto e vírgula ;
Em meio ao delírio de vocábulos um sobre o outro.
Almas desvairadas, surrealistas, dadaístas!
A sintaxe era a união destas loucas anarquistas!

- Enfim, ponto final. - Ou não.
Ponto em seguida para uma pobre vírgula.

Apenas o recomeço de uma nefelibata corrida.    

segunda-feira, agosto 12

Manifestações cívicas, reações governamentais e redes sociais distribuídas.

Configuração de uma rede social distribuída

             Desde o mês de junho deste ano, vive-se uma situação inusitada em nosso país. Milhares de pessoas protestando em praça pública, patrimônio público e privado sendo depredado por forças radicais e infiltradas nas manifestações, governantes atônitos dando respostas embasadas em paradigmas ultrapassados, segmentos políticos tentando tirar dividendos da situação, acirramento de ânimos e observadores estupefactos diante dos efeitos da mobilização provocada por uma estrutura pouco ou nada estudada, a rede social distribuída.

       Viciados à gestão pachorrenta e autoritária, os governos estaduais, no primeiro momento, bestificados com os acontecimentos, optaram por  “endurecer” contra os manifestantes, afirmando que não cederiam às pressões para revogar o aumento de transporte coletivo, ponta do iceberg da pauta de reivindicações das massas. Pressionados pela extensão e intensidade das manifestações, resolveram esses governos, “entregar os anéis, pra não perderem os dedos”. Revogaram os aumentos concedidos. Mais aparvalhados ficaram, ao verem que, mesmo com a reivindicação atendida, as mobilizações não só  continuaram, se acentuaram.

        Entrou então, em cena, o governo federal. Inicialmente, tentando  apropriar-se das bandeiras do movimento cívico e utilizá-las em benefício do projeto de poder do atual governo. Primeiro, buscou impingir à Nação, a convocação de uma Constituinte exclusiva para promover a reforma política do país. Proposta rechaçada pelos próprios parceiros da sua base de sustentação, que evidenciaram a inconstitucionalidade da convocação pretendida. Tentou então, o governo federal, fazer passar um plebiscito para ter efeitos ainda, nas eleições do próximo ano, ou seja, “mudemos, mas conosco dizendo o que e de que forma”. Pretensão de aprovação inviável, ante o número insuficiente de parlamentares da base aliada, para enfiar “goela a baixo” a proposta  governamental. Aliás, base aliada cada dia mais infiel, com os olhos voltados para as eleições de 2014.

          Ante as duas derrotas, o governo federal, orientado pelos marketeiros do Planalto, “pinçou” uma das principais reivindicações das manifestações públicas, a solução para o caos da saúde pública brasileira, e adotou o programa “Mais Médicos Para um Brasil Melhor”. Mais um equívoco.

          O programa é inequivocamente de elevado apelo midiático. Veja-se o quanto a propaganda é veiculada,  nos meios de comunicação. E, ao pretender solucionar a questão, buscando “na marra”, ampliar o número de médicos, inclusive com a “importação” de médicos estrangeiros, sem revalidação de seus diplomas no Brasil, entrou o governo, em rota de colisão com a categoria profissional tradicionalmente injustiçada, a dos médicos. Seja pelos baixos salários, seja pela total falta de condições de trabalho. Além de pretender a ampliação do curso de medicina, de 6 para 8 anos, com a obrigatoriedade de os formandos em medicina, atuarem por 2 anos no SUS. 

      Todos sabemos que a situação caótica da saúde pública brasileira decorre da falta de estrutura. E também, da corrupção que grassa nos governos que utilizam o setor saúde para fazer políticalha, em face do volume de recursos alocado ao ministério específico. É só atentar para quais os ministérios são mais disputados pelos partidos políticos, nas composições de governo. Os “olhos gordos” sobre o ministério da saúde não são por vontade de solucionar a situação drástica da saúde pública brasileira, mas porque ali "rola"muito dinheiro.

          Medidas emergenciais são necessárias. Mas não é aumentando artificialmente o número de médicos nem propagandeando os hipotéticos benefícios do programa, que se dará uma resposta satisfatória à questão da saúde. É preciso investir maciçamente na infraestrutura dos postos e hospitais públicos, dotando médicos e paramédicos (enfermeiros, nutricionistas, psicólogos e outros) de condições de trabalho. 

         Para se ter saúde, suprema ironia, é preciso também investir em segurança. Centenas de profissionais da saúde já foram assaltados e violentados, dentro de postos e hospitais. Também, aumentar atabalhoadamente os salários dos médicos, importar médicos estrangeiros, que desconhecem a realidade onde vão trabalhar e sequer falam a nossa língua, jamais serão soluções, se não houver investimento na infraestrutura.  O programa pode até agravar um quadro que já é caótico. Vejam-se os municípios que oferecem até R$ 30.000,00 de salário para médicos e, ainda assim, as vagas continuam não preenchidas. Nenhum profissional responsável embarca em aventura. Sabe ele de antemão, que vai lutar com estrutura deficiente que inviabiliza uma ação minimamente satisfatória. 
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          Também, se se quer efetivamente cuidar da saúde e não da doença, há que se investir em saneamento básico. A falta de saneamento em todas as cidades brasileiras, pequenas médias ou grandes, é responsável por significativa parcela dos doentes que chegam aos postos e hospitais. Mas nenhum governo investe em saneamento porque “não rende voto”, como dizem as cobras criadas do nosso carcomido mundo político “saneamento vai pra baixo da terra. O povo não vê. É melhor levantar postes e prometer a chegada da luz”.

          São muitas as questões estruturais que precisam ser atacadas de frente, sem  demagogia. Mas o stablishment, o status quo não responde a essas questões. Os poderes públicos encastelam-se em esferas que constroem para si próprios, dificultam o acesso de quem os elegeu e debatem-se na luta pela  manutenção no poder. O que explica perfeitamente a queda de aprovação de governantes e instituições, e o cansaço da cidadania com esse quadro que é mantido pelo cidadão enquanto contribuinte, no país campeão de carga tributária e de falta de retorno dos recursos arrecadados.

    Foi contra essa realidade, penso eu, que as massas foram às ruas  protestar. Não oferecendo respostas concretas, objetivas e não demagógicas, os governos alimentam as condições para a mobilização cívica em busca de soluções e também, para a distorção do movimento, com a infiltração de segmentos como o crime organizado e outros a quem não interessa a transparência e o regime democrático efetivamente participativo.

       O que atordoa mais os governos, é a presença de um elemento fluido, difuso, não identificado, no processo de mobilização de massas. As redes sociais distribuídas, que nada tem a ver com orkuts, facebooks, twitters e outros afins, que no máximo, podem funcionar como instrumentos desencadeadores dessas redes. Redes sociais distribuídas são as que se formam entre pessoas, podendo cada pessoa ou cada nodo de rede, na terminologia técnica, interagir com todas as demais pessoas ou nodos desta ou daquela rede social distribuída.


       É interessante se ter presente que toda rede se forma entre pessoas, sendo o sinal de fumaça, o pombo coreio ou a internet, dependendo do momento histórico, instrumentos utilizados pelas pessoas que interagem entre si, numa rede, sem lideranças ou "igrejinhas” a controlá-la, característica básica da rede social distribuída. 

     A ausência de estrutura formal ou de lideranças permanentes deixa as organizações piramidais, especialmente os paquidérmicos governos, perdidos como “cego em tiroteio”, pois não tem quem identificar, para cooptar, corromper ou simplesmente "desaparecer".  

      Na ilustração abaixo, diagrama de uma rede social centralizada, própria das estruturas burocráticas, de uma rede social descentralizada, onde o poder é compartilhado entre "líderes" e finalmente, de uma rede social distribuída.

[Em breve, artigo específico sobre redes sociais distribuídas]


quinta-feira, agosto 1

Virei uma página. A Vida continua.






Hoje, dia 1º. de agosto de 2013, viro uma página em minha vida. Após mais de 35 anos de serviço público e mais de 60 anos de idade, afasto-me de minhas  atividades de  Auditor Federal de Controle Externo, do Tribunal de Contas da União.  Sublinho. Encerro minhas atividades no TCU.  

      No TCU fiz carreira. Ocupei as funções de confiança de assessor de secretário, diretor técnico e depois, de secretário de controle externo no Pará. Assim, deixo o serviço público com a sensação do dever cumprido e  consciente de que, com o apoio dos colegas e das autoridades do TCU,  realizei. Dentre as realizações de minha gestão de secretário de controle externo, evidencia-se a sede própria da  Secretaria de Controle Exteno do Pará, que antes, ocupava instalações do Ministério da Fazenda, no conjunto dos Mercedários.

   O prédio atual, localizado na Travessa Humaitá, 1574, entre Duque  de Caxias e Visconde de Inhaúma, foi conseguido mediante negociação que envolveu o TCU, o Comando da Aeronáutica e o Governo do Estado do Pará , pelo então presidente do Tribunal, ministro Valmir Campelo, que não mediu esforços para, com o empenho da equipe que dirigia a SECEX-PA à época,  reformar o prédio, dotando a Secretaria de uma sede que se destaca, entre as unidades do TCU nos Estados, dentre outras razões, por sua funcionalidade.

  Também marcante para mim, foi o evento “Controle da Geestão Ambiental”, realizado quando o ministro Walton Alencar Rodrigues era presidente do TCU. Senão foi o primeiro, foi um dos primeiros eventos de âmbito nacional, realizado fora de Brasília, pelo Tribunal. Um evento realizado na Amazônia, com a presença da então ministra do meio ambiene, Marina Silva, cujas conclusões orientaram a ação do TCU.

Outro motivo de grande satisfação para mim, é eu sair com o Teletrabalho  implantado no Tribunal. Quando o tema era ainda, uma heresia, coloquei-me ao lado dos  defensores do Teletrabalho, em todas as oportunidades. Às vezes até, colocando  “minha cabeça a prêmio”, pois sendo titular de função de confiança, nem por isso deixei de sustentar minhas convicções. Afinal, os trabalhos do TCU se prestam para serem realizados fora de suas dependências.

Sendo essa a realidade, na medida em que existem sistemas eletrônicos para aferir a  presença física de servidores na Instituição, penso ser uma distorção do papel de gestor, ficar ele conferindo a controlando a presença do servidor. O mérito do gestor, público ou privado, acredito, está na definição de critérios objetivos para  se   aferir  a produtividade e gerenciar efetivamente a produtividade do servidor,  independentemente da hora e do local em que ele faz seu trabalho, uma vez reunidas as condições necessárias à realização do trabalho fora dos escritórios da empresa ou instituição.

O teletrabalho, que tem indiscutíveis vantagens para o serviço público, para o servidor e para a coletividade, é uma sistemática amplamente adotada nos países civilizados. Nas Instituições públicas brasileiras que já o adotam, o teletrabalho é utilizado como estratégia, para alcançar metas institucionais, especialmente na fase de projeto piloto. Assim, é um equívoco considerar-se o teletrabalho uma benesse ou uma vantagem, pois, quando normatizado e vinculado à produtividade, o servidor em teletrabalho produz mais que o servidor fechado no gabinete e sob os olhares constantes de seus chefes.

          Adotado no TCU, quando eu não era mais secretário de controle externo,   pratiquei o Teletrabalho, o que me permitiu qualidade de vida e aumento de produtividade. E as chefias tiveram oportunidade de confirmar a validade da sistemática que hoje, está inscrita na Lei 12.776, de 28/12/2012.

[Em breve, neste blog, um post específico sobre Teletrabalho.]

           A Vida continua. Quando afasto-me do TCU, darei andamento a projetos que venho desenvolvendo na seara literária e também, nas áreas de comunicação e consultoria. Pois, para mim, aposentadoria não é profissão. A pessoa encerra uma etapa de sua vida, para dar início ou continuidade a outras realizações. Sempre tive essa convicção. E ela aumentou quando participei do programa Escolhas Conscientes, oferecido pelo TCU a seus servidores prestes a se aposentarem. Um programa importantíssimo, que todo servidor público deveria ter oportunidade de participar. E felizes os que participam, entendem o “espírito da coisa” e valorizam a oportunidade que lhe é oferecida.  

          Penso apenas que a atividade pós-aposentadoria, mesmo quando remunrada,  deve ser mais soft, sem  as pressões que ocorrem quando estamos ainda na primeira carreira. Havendo também a possibilidade de se desenvolver trabalho voluntário, afinal, são tantos os segmentos sociais carentes de apoio e estímulo, especialmente de profissionais com a qualificação dos servidores do TCU.


          No mais, é viver a Vida. Aproveitar, “curtir” mais a família, viajar, conhecer novas realidades. Já dizia Carlos Coimbra, meu professor de Filosofia, “o homem só se civiliza, quando ele conhece outras civilizações”.    

domingo, junho 9

O PARÁ E A MÍDIA NACIONAL E MUNDIAL. SOBRE A MATANÇA DE CACHORROS EM SANTA CRUZ DO ARARI



          Mais uma vez o Pará entra em mídia nacional e mundial por motivos negativos, prejudiciais à sua imagem. Desta vez, por conta da comoção nacional e internacional, causada pela matança de cachorros abandonados, no município de  Santa Cruz do Arari, município da Região do Marajó, determinada pelo prefeito Marcelo Pamplona que, estrateginamente, “sumiu do mapa”. Vai esperar a opinião pública esquecer o episódio e, quem sabe, voltar a sr eleito.

          Sem dúvida foi uma solução equivocada e criminosa, perpetrada por um gestor público, para tratar dos efeitos de um problema que não é privilégio de Santa Cruz do Arari ou do Marajó, que padecem de outros problemas de igual ou maior gravidade, como o menor índice de IDH, Índice de Desenvolvimento Humano, do país. Em maior ou menor escala, a superpopulação animal é observada em quase todas as cidades brasileiras.

          O enfrentamento dessa questão é dever do Estado, que não tem políticas públicas voltadas para a questão e é titubeante em adotá-las. Assistí há alguns meses atrás, o diretor do Centro de Zoonoses do Pará, entrevistado num programa de televisão, afirmar que haveria ações voltadas para os animais abandonados. Fiquei surpreso. Se é que existem essas ações, não se percebe a efetividade delas.  Pelo contrário. A cada dia que passa, aumenta o número de animais abandonados, na capital paraense e em todas as cidades do interior. O que evidencia a ausência de vontade do Poder Público, de assumir essa sua obrigação. Basta se andar pelas ruas de Belém, ou de qualquer cidade do interior,  para se constatar o aumento expressivo dos animais abandonados, especialmente cachorros e gatos.

          Examinando-se a questão à luz da “lei de causa e efeito” (dada a causa, segue o efeito; mantida a causa,  mantido o efeito; eliminada a causa, eliminado o efeito), nossa indignação deve ir além da matança dos animais, que é uma reação emocional diante do  efeito de um problema que é sério, grave e cada vez mais fora de controle. E alcançar as autoridades que se omitem do dever de tratar com firmeza a superpopulação animal. Aí sim, nossa indignação se volta contra a causa do problema, uma atitude racional.

Urgem medidas concretas por parte do governo do Estado, competindo também às prefeituras municipais, inclusive a da capital, fazerem a sua parte, com a definição clara, da responsabilidade de cada uma dessas esferas. Fazem-se também necessárias, regras objetivas e amplamente divulgadas,  para que a população fiscalize sua execução e também, faça a parte que lhe cabe,  como acontece em todos os países que lograram solucionar o problema de superpopulação animal ou sequer o tiveram.

A imprensa e nós, formadores de opinião, temos um papel importantíssimo nesse processo de  busca de resultados concretos para a solução do problema da superpopulação animal em nosso Estado, louvando-nos inclusive do efeito viral das redes sociais, para que os Poderes Públicos saiam de sua acomodação e cumpram o que é da sua competência.  


          A mudança de postura desses Poderes é urgente e necessária, para que o Estado do Pará deixe de entrar em mídia nacional e mundial, somente  por motivos que maculam a dignidade de seu povo, que é tão vítima quanto os animais que foram abatidos em Santa Cruz do Arari.

quarta-feira, maio 22

CATALINAS E CATALINEIROS





Catalina amerissando. Imagem do Blog do Rocha, de Manaus-AM.

-         Passageiros em trânsito!!!!
(pausa)
-         Passageiros locais!!!!

       Era assim que, com sua potente voz,  o Sr. Moisés Cohen, agente da Panair do Brasil em Parintins, Amazonas, minha terra natal, anunciava aos passageiros que, em breve, o Catalina da Panair do Brasil iria levantar vôo, das barrentas águas do Rio Amazonas, no rumo de Manaus ou de Belém, e escalas, dependendo do avião estar “de subida” (se estivesse indo para Manaus), ou “de baixada” (no rumo de Belém).

      Aí, os passageiros pegavam a catraia, grande canoa movida a remo, conduzida pelo Osvaldo, o catraieiro responsável pelo trajeto porto-avião-porto, e seguiam na direção do hidroavião, que ficava atracado a uma boia, em frente à rampa lateral ao mercado municipal da cidade. Após a entrada de todos os passageiros no avião, a catraia se afastava e então, as hélices começavam a girar. Daí a pouco, o Catalina levantava vôo e seguia sua rota. Eu contemplava o banzeiro que se formava naquelas águas e acompanhava com o ollhar, a subida da aeronave, até se perder no horizonte. Imagens como essa, nunca se apagam na memória da gente. A chegada e a saída do Catalina da Panair movimentavam a cidade.

      Felicidade total, foi quando lá pelo início dos aos 60, eu entrava num Catalina, junto com meu saudoso pai Octacílio José Pessoa Ferreira, para fazer minha primeira viagem a Belém do Pará. Realização de dois  sonhos, voar num Catalina e conhecer a Metrópole da Amazônia.

(cai o pano)

        Uns 50 anos depois, em 2012, na visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré, ao Hospital da Aeronáutica, em Belém, então comandado pelo amigo Coronel Médico Camerini, conheci o segundo sargento reformado, Walter Florentino de Souza, um Catalineiro. A conversa girou inevitavelmente sobre Catalinas e Catalineiros. Um gostoso papo saudosista em que conheci detalhes interessantes daquele hidroavião. Ao saber de minha vivência em relação aos Catalinas, Florentino ratificou um convite que, antes, já me fora feito pelo meu irmão de ordem, Enock Rabelo, da reserva da Aeronáutica que nem Florentino, o convite para ingressar na ABRA-CAT,  Associação Brasileira dos Catalineiros e colaborar para o fortalecimento dessa entidade que reúne os remanescentes trabalhadores nos catalinas e todos os que, de alguma forma, tiveram contato com os Catalinas, inclusive como passageiros.

      O Catalina era um hidroavião bimotor, de uso militar durante a Segunda Guerra Mundial, construído pela empresa Consolidated Aircraft, para transporte e vigilância aérea. A Força Aérea Brasileira-FAB utilizava os Catalinas, em missões de patrulha no litoral brasileiro.

    Conhecido como Patachoca, em razão de sua aparência enquanto  flutuava sobre as águas, o Catalina voava a 250 Km por hora e  tinha autonomia para 4 mil quilômetros. Era movido por dois motores Pratt&Whitney, de 1.200 HP, cada um deles. Media quase 20 metros de comprimento, por 32 metros de envergadura de asas, aí incluídos os 2 flutuadores, as “canoinhas”, encaixadas nas extremidades das asas, que se dobravam verticalmente, no momento da amerissagem e facilitavam a flutuação e o equilíbrio da aeronave.

      Com o fim da guerra, o catalina já sem a couraça de guerra, dos canhões, das metralhadoras e bombas, assumiu uma nova função, a de busca e salvamento. Em 1958, foi reconfigurado para servir como cargueiro, prestando inestimáveis serviços à Amazônia, carente de infraestrutura aeroportuária. Só um avião anfíbio, que pousa em terra e na água, poderia operar na Amazônia com seu mundo de águas e atender as cidades que, logicamente, surgiram ao longo das calhas dos nossos rios, as ruas da Amazônia nas palavras de Rui Paranatinga Barata. 

      A partir de 1950, os Catalinas passaram a ser explorados comercialmente.  A empresa Panair do Brasil, utilizando os famosos PBY5 de 16 lugares e cadeira de vime, transportava passageiros entre as cidades amazônicas, numa rota que seguia basicamente a calha do rio Amazonas.    

      Os Catalinas amerissavam junto às cidades de Curralinho, Gurupá, Altamira, Monte Alegre, Santarém e Óbidos, no estado do Pará. Prosseguiam estado do Amazonas a dentro, servindo às cidades de Parintins, Itacoatiara, Manaus, Coari, Codajás, Tefé, Fonte Boa, Içá, São Paulo de Olivença, Tabatinga e Benjamim Constant, e adentrava o território peruano, alcançando as cidades de  Pebas e Iquitos.  

      Durante décadas, a Panair e seus catalinas desempenharam importantíssimo papel, na integração das cidades ribeirinhas da Amazônia, como descreve com extrema competência e felicidade raramente vista nos romances históricos, Ademar Ayres do Amaral, em sua obra “Catalinas e Casarões”, Edição do Autor, 2009. Ademar narra inclusive, os vínculos que se estabeleceram entre tripulantes da Panair do Brasil e pessoas da família dele.    

      Em 1966, o regime militar implantado no Brasil, dois anos antes, decretou a quebra da Panair do Brasil, num processo, até hoje, carente de explicações. As linhas aéreas internacionais daquela empresa, passaram a ser operadas pela Varig e as domésticas, inclusive a da Amazônia, pela então Cruzeiro do Sul, que mais adiante, foi absorvida pela Varig. A Cruzeiro ainda operou com os Catalinas, até 1968, quando os Patachocas foram “encostados”, passando então, a empresa,  a operar com os Douglas DC3, com uma particularidade. No extenso trajeto entre Belém e Manaus, apenas uma escala, em Santarém, ante a carência de aeroportos. O governo federal comprometeu-se a construir campos de pouso, tarefa que ficou a cargo da COMARA- Comissão de Aeroportos da Região Amazônica, que passou a construir aeródromos nos diversos municípios da Amazônia, não necessariamente nas cidades ribeirinhas.
DC-3  da extinta Panair. A partir de 1968, a Cruzeiro passou a operar na Amazônia, com esses aviões.
        A brusca suspensão das concessões da Panair do Brasil teve efeito catastrófico para as cidades ribeirinhas da Amazônia, em sua grande maioria aglomerações humanas de  pequeno porte, mas que mesmo assim, eram servidas pelos Catalinas. A partir de então, passageiros das cidades do Médio e Baixo Amazonas, por exemplo, passaram a se deslocar de barco, às vezes em condições precárias,  até Santarém, para, de lá, pegarem um avião, para Manaus ou para Belém.  Isso quem tinha boas condições financeiras. Os menos abonados passaram a utilizar unicamente o transporte fluvial que,  com o sucateamento da frota branca da ENASA, Empresa de Navegação da Amazônia e Administração do Porto do Pará, ficaram entregues a um  incipiente e precário transporte fluvial. Mas, isso é pauta para outra matéria.

        Com a extinção por decreto da Panair do Brasil, os Catalinas retornaram às Bases Aéreas da Força Aérea Brasileira.

        Na manhã do dia 19 de julho de 1984, o 6525, o último C-10 Catalina, que realizara seu último vôo oficial, em 12 de junho de 1982, na Base Aérea dos Afonsos/RJ, deu adeus aos céus da Amazônia, mais precisamente de Belém do Pará.

        Aquele  avião, que tem História, foi totalmente reformado na Base Aérea de Belém, por uma equipe de especialistas da FAB, de que o mecânico de estrutura de aviões, Florentino, fez parte. Essa equipe foi muito elogiada pelos veteranos pilotos americanos Roy E. Degan e Lee Andrews, os condutores do último Catalina, para os Estados Unidos, que se disseram impressionados com o estado de conservação e a capacidade operacional do velho Patachoca e elogiaram a FAB, por conservá-lo tão bem, em que pesem  os 40 anos de emprego operacional.  

       A solenidade de despedida do último Catalina, estava  marcada para a véspera, dia 18, mas um pequeno detalhe, na pressão do óleo de um dos trens de pouso, levou ao adiamento da viagem. O que não impediu o sobrevôo do C-10, 6525 sobre Belém, já com as cores da Airplane Sales International Corp., de Santa Mônica/Califórnia, que o comprou. Naquela ocasião, se pode ler sob o bojo do avião, “Adeus FAB, Adeus Brasil”.

       É quase impossível a um Catalineiro descrever esse fato histórico da aviação brasileira e particularmente da Amazônia, sem se emocionar. Especialmente ao lembrar que a despedida do último Catalina se deu exatamente, na véspera do dia 20 de julho, data de aniversário de Santos Dumont, patrono da Força Aérea Brasileira.

     

          A importância social dos Catalinas para as comunidades ribeirinhas da Amazônia, seja nas operações militares da FAB seja na exploração comercial da linha aérea pela Panair do Brasil, me motiva a escrever um romance em que se conte a saga dos Catalinas, lance luzes sobre esse período da nossa História ainda obscuro e se traga a público o real significado da presença dos Catalinas, na Amazônia.
         

           

sábado, maio 4

Para quem gosta de escrever e de poesia (ou O Escritor e Seu Instrumento).





          O apego ao instrumento de trabalho é uma tônica entre as pessoas que escrevem. Seja entre os que fazem desse ofício uma atividade profissional e dela sobrevivem, ou entre aqueles que não viveriam em paz se não “colocassem no papel”, o fruto de suas pesquisas e reflexões, de suas angústias, enfim, tudo aquilo que se traduz  nos seus textos. Esse apego do sujeito ao instrumento sobreleva, nos dias de hoje, quando os textos são produzidos nos PC's e notebooks, que estão cada vez mais popularizados e  podem ser levados para todos os lugares.

A impressão que me dá é que a unidade computadora, como dizem nossos irmãos lusitanos, pega até os cacoetes do seu usuário, que pode até escrever num equipamento similar, mas com certeza, sem que sua produção seja igual ao que faria, se estivesse usando sua própria máquina.    Assim, é angustiante quando você, por alguma   razão, fica longe do seu “confidente fiel”, como diz o Toquinho, na sua música “O Caderno”, que, na verdade, era o notebook ou o tablet da criança, na época que a música foi composta.

Recentemente vivi uma situação dessas. Passei  cinco dias sem meu notebook. Na linguagem popular da informática, ele “deu pau”. Graças a Deus, já estou trabalhando nele e parece até que as ideias estão me vindo com mais clareza e fluindo muito melhor.

          Nos dias que estive ausente, aliás, que meu notebook esteve ausente de mim, só não fiquei “fora do mundo” porque o smartphone me proporcionou contato com  os amigos e as facilidades que ele permite. Mas, para escrever, para produzir textos  não é a mesma coisa. Esse tipo de equipamento limita a gente, ou, pelo menos a mim é assim. Provavelmente os usuários de tablets não sintam tanto a diferença. Não sei. Confesso uma fraqueza: tive um tablet e não me acostumei com ele. Pelo menos com aquele que eu tive. Quem sabe, mais adiante, me desafie novamente e seja melhor sucedido.

          Pois bem, quando eu pus “a boca no mundo”, pelo smartphone, anunciando minha angústia por estar sem meu notebook, um fraterno amigo e conterrâneo , mas que é um tremendo gozador, o Gláucio Silva, não perdeu a oportunidade de me “encarnar”. Colocou à minha disposição uma máquina datilográfica Olivetti, em perfeitas condições de uso. Dei o troco à altura. Pedi que ele me enviasse a máquina, por e-mail. Kkkkkkkk.

          Mas a brincadeira do Gláucio não foi de todo, fora de propósito. Apenas, em razão do abençoado avanço tecnológico, a máquina datilográfica soa hoje extemporânea, como peça de museu. Especialmente para as gerações que se alfabetizaram nos computadores. Tanto é assim que, um dia desses, meu sobrinho Enzo Vasconcelos Pereira, diante de uma jurássica máquina datilográfica, não teve dúvida, ao observar espantado, o funcionamento do “monstrengo”: - “Legal esse computador, né pai? Ele não precisa de impressora. Tu bate a letra e ela já sai impressa no papel”. Kkkkkkk. Coisas de criança do século XXI.

Antes dos computadores, as máquinas datilográficas eram, como diz a colunista Rejane Barros “oquiá”. Lembro-me quando chegaram as primeiras máquinas de escrever elétricas de esfera. Um sucesso. Você aferia o nível dos escritórios, em função da presença ou não de máquina datilográfica elétrica. Especialmente se ela tivesse “apagamento automático”, o que aposentou as fitas corretivas de erros.



Às máquinas datilográficas, muito mais se apegavam seus usuários. Era um relacionamento quase marital. Possivelmente, antes delas, esse vínculo deveria acontecer em relação às penas e às canetas tinteiros.





Guisepp Ghiaroni imortalizou o vínculo do escritor com sua máquina datilográfica, neste poema, que eu compartilho agora, com você:




MÁQUINA DE ESCREVER

- Giuseppe Ghiaroni

Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval.

Vende esse rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.

Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende, além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.

Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.

Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.

Mas poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas, tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!

Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.

Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.

Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas teclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.

Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.

Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar.

          Guiseppe Artidoro Ghiaroni, nasceu em 22 de fevereiro de 1919, em Paraíba do Sul, Minas Gerais. Foi poeta  e jornalista,  imortalizou-se no Rio de Janeiro, na época áurea do Rádio, em que seus poemas, lidos ao microfone pelos locutores da Rádio Nacional, eram sucesso em todo o país. Suas atividades jornalísticas começaram no jorrnal A Noite. Ghiarone sempre desenvolveu intensa atividade, sendo a  última delas, na produção da Escolinha do Professor Raimundo, da Rede Globo. Faleceu em 21 de fevereiro de 2008.

          Lembro-me de um disco de vinil compacto com 4 faixas, que continham 4 poemas de Ghiaroni, “O Dia das Mães”, “O Dia dos Pais”, “Presente de Natal Para um Órfão de Guerra” e “O Aniversário do Meu Amor”, que havia na minha casa, na minha adolescência. Eu não cansava de ouvir e ouvir, na eletrola de  casa, chegando até a decorar algumas delas. Acho que vem daí meu fascínio por Poesia e sua interpretação. E também, meu interesse pelo Rádio, meu primeiro emprego, como locutor.


          Hoje, nossos textos são feitos nos computadores, sendo mais comuns os notebboks. Esse instrumento de trabalho de quem escreve, também já foi cultuado poeticamente por Raimundo Gadelha, no seu poema





“Desconhecidas Sendas”
No computador
vejo um móvel quase pensante
E, neste instante, sou um ser perplexo
mergulhado na busca de um desconhecido nexo
Olho minuciosamente o monitor
como que nele querendo entrar, tocando na tecla
(uma única que fosse) de um espírito possível
Mas, chumbado, ele se mantém impassível
Tento, então, fantasiar o caminho de suas ideias
por chips, placas megabytes
E piegas que sou, fico a romancear,
contemplando esta misteriosa estrada
de onde bifurcam lógica e emoção
Mas quem garante quem é o que?
Neste exato aparente momento sou emoção digitadora
O computador é tão só a captação do que tento ser
Mas quem e o quanto de emoção sentia quando criava?
Tudo é paraíso e inferno únicos
Programado e programável, tudo reside na essência
Um chip, um disquete, uma alucinação qualquer resgatável
E de tudo, aquela sensação que programa nenhum decodifica
De onde  advém esta simultânea certeza de força e insegurança?
A verdade é que no meio de tanta informática, falta explicação
E não falo de Deus ou da origem do Universo,
falo sim dos links do interior com este mundo externo
Se opero o programa é porque programado fui
Se não faço o que sempre quis, programado fui
Sendo assim, vou conjugando verbos galaxiais
que não entendo, mas com os quais tenho certa intimidade
E penso se a preposição não seria um fragmento da alma
que, além da ação, busca conexão com os fatos...
Abaixo todas as guardas e sou receptivo por inteiro
Um Deus que ainda desconheço
Os bruxos
O computador
Os duendes
Os trancosos
Que tudo se chegue e (mesmo sem entendimento) se harmonize.

          Esse poema é inserido no livro “Pra não esqueceres dos seres que somos”, editado em 1998, que contém um CD encartado, com os poemas, todos de Gadelha. Hoje, uma das preciosidades de minha biblioteca.

          Raimundo Gadelha, é formado em Publicidade e Jornalismo pela Universidade Federal do Pará, com especialização na Universidade de Sophia, em Tóquio, Japão, onde viveu durante três anos, depois de ter estudado em Nova York. Poeta e fotógrafo, sua obra percorre o romance e a poesia, geralmente associada à fotografia. Trabalhou durante três anos como editor da Aliança Cultural Brasil-Japão e, em 1994, fundou a Escrituras Editora.  (Fonte:http://www2.bienaldolivro.ce.gov.br/). 

          

        É isso aí, caro leitor. Quem escreve, não sem razão, desenvolve um vínculo profundo com o instrumento que utiliza para produzir. E seduzir.